Fernando Monfardini, compliance officer e DPO do Clube Atlético Mineiro, realizou uma entrevista exclusiva para o SBC Notícias Brasil, onde ele compartilhou suas ideias para prever manipulações de resultados antes de jogos, deixando a decisão na mão do clube, como prevenção de danos ao modelo atual, em que o clube recebe a notícia de manipulação apenas após a confirmação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Monfardini diz que vive o clichê do “ex-jogador frustrado”. Trocou o sonho dos gramados por uma carreira sólida na área jurídica, atuando como consultor do Vasco e liderando comissões de compliance da OAB, além de ser autor do livro Compliance no Futebol. Hoje, está à frente de projetos de integridade no Galo e aposta na articulação com operadoras de apostas regulamentadas, como a H2bet, oficial patrocinadora do clube, para ampliar a proteção do futebol contra manipulações e má conduta.
Um dos principais aspectos levantados por Monfardini foi como clubes de futebol podem se unir fora do gramado para criar um mercado mais regulamentado. Além disso, sobre como casas de apostas têm papel crucial no desenvolvimento da indústria para muito além de patrocínios – na prevenção à manipulação, compartilhamento de dados e incentivo fiscal ao setor de compliance.
Na prática, punem-se mais jogadores de ligas menores do que os grandes jogadores que se envolvem [em manipulação]. Isso, para mim, é um problema grande.
SBC Notícias Brasil: Como as auditorias internas em clubes de futebol podem contribuir para detectar ou prevenir possíveis esquemas de manipulação de resultados?

Fernando Monfardini: O preventivo que a gente tem hoje é a educação. Estamos incipientes e trabalhando numa análise preditiva para nos anteciparmos. Para isso, precisamos do apoio de ferramentas. Os clubes normalmente não têm estrutura para manter uma ferramenta própria de detecção de manipulação. O que eu acho que deveríamos fazer enquanto indústria é ter uma rede de inteligência integrada com as federações, a CBF, os clubes, para podermos analisar de forma preditiva. Talvez eu venha [mais para frente] com uma proposta mais concreta.
O que estamos trabalhando aqui é um modelo de parceria com a H2bet para podermos analisar nossos movimentos internos, tanto de apostas ilegais (feitas por quem está proibido de apostar) quanto de sinais de manipulação de resultados, para agirmos antes da ocorrência, saber da aposta antes da partida e tomar as ações possíveis.
Nossa ideia é ter um canal de comunicação. Em paralelo, um canal educacional. Eu me preocupo muito… O nosso profissional está bem coberto. Claro, as coisas podem acontecer. Mas eu me preocupo muito com a categoria de base. A realidade é complicada, os meninos longe da família. O celular hoje está na mão de todo mundo, e ainda temos o desafio de casas de apostas ilegais funcionando aqui. É uma concorrência desleal com quem fez o investimento para estar legalizado.
É importante, inclusive, do lado comercial. Temos um apoio substancial de casas de apostas, e é interessante que defendamos o mercado regulado. Se o mercado regulado não tiver fins lucrativos, as empresas vão ter que cortar custos, e aí vão acabar fechando e saindo do mercado.
SBC Notícias Brasil: Na sua visão, a responsabilidade imposta a jogadores de altas ligas por manipulação de resultados descobertas através de análises internas deveria ser maior do que a jogadores que, talvez, estejam em uma posição de vulnerabilidade maior dentro de ligas sem investimento próprio e, portanto, mais suscetíveis a influências externas?
Fernando Monfardini: Olha, não sei se deveria haver diferença de punição, atenuantes, algo do tipo. O que eu vejo é o contrário. Na prática, punem-se mais os de ligas menores do que os grandes jogadores que se envolvem. Isso para mim é um problema grande.
Acho que tem que haver uma proteção aos públicos vulneráveis no futebol. Não sei se com atenuantes, mas algum projeto de proteção e comunicação segura, para casos de constrangimento, de tentativa de suborno, para que eles possam falar e se proteger. E, talvez, um atenuante num segundo momento. Não sei se funcionaria bem. Mas me incomoda ver como jogadores são tratados: os pequenos recebem punições severas e os maiores seguem jogando normalmente. Isso, para mim, é um problema. Acho que deveria ser o contrário, se fosse para haver diferença na aplicação da lei, deveria ser mais firme com quem tem que dar exemplo.
O cara está ali na ponta da pirâmide e é exemplo para muita gente; a lei deveria ser mais firme ali. Lembrando que estamos falando de 1% dos jogadores de futebol. E, descendo para a base, a grande maioria dos meninos que está lá não vai ter carreira, sequer vai se profissionalizar, e os que ficam rodam em times menores, sem salários garantidos, sem contrato assegurado o ano todo. Temos um problema geral no mercado de falta de proteção em vários aspectos, que incluem a manipulação de resultado.
SBC Notícias Brasil: Os clubes estão abertos a isso? A ter esse canal de comunicação? Ou ainda existe esse receio?
Fernando Monfardini: É difícil falar por todos, porque são muitos. Venho tentando uma articulação com uma pauta mais ampla que envolve manipulação de resultados, que é o movimento pela integridade do futebol. Estamos trazendo mais clubes para dentro, já somos sete ou oito, então há uma articulação. Claro, dentro de um universo de mais de 1.200 clubes, é muito pouco. Temos que considerar capacidades de infraestrutura, de investimento, de recursos humanos.
Mas acho que os clubes precisam ser mais proativos, mas também precisávamos ter um mercado regulado de futebol. Não é tão regulado. Precisávamos ter um mecanismo de regulação dos clubes. Alguém precisa puxar isso. Acho que deveria vir da CBF ou de algum órgão regulatório. A própria SPA poderia ajudar o Ministério do Esporte.
Vejo ainda nos clubes uma dificuldade de conversar e articular o produto. No campo, somos adversários, eu quero que você perca. Normal, é o esporte, é competitivo. Do lado de fora, temos que pensar: como conseguimos fazer isso ser melhor para todo mundo? Eu não consigo jogar sozinho, preciso de você de alguma forma.
SBC Notícias Brasil: Quais departamentos ou áreas dentro de um clube devem ser prioritariamente auditados quando há suspeitas de manipulação de partidas?
Fernando Monfardini: É difícil falar na prática, porque nunca tivemos alerta. Na época em que estourou a operação [Penalidade Máxima, da Polícia Federal], puxamos [o histórico] para ver se tínhamos alguma coisa. O que aconteceu foi com um jogador que não era nosso [Vitor Mendes], era emprestado para outro clube, e foi nesse outro clube que ele cometeu a infração. Normalmente, o que acionamos é o jurídico, o compliance e o departamento de futebol.
Só vamos ficar sabendo depois que houver a red flag. A casa de apostas apitou, aí avisa e as empresas de monitoramento veem e elas informam a CBF. O jogo ocorreu. Se o cara tomou o cartão, já está consumado. E só aí chega ao clube. E o clube não consegue fazer nada, já vira modo de defesa. Você vai ter que decidir o que fazer, se vai suspender o jogador.
O que estou pensando aqui é o contrário. Ao ver uma movimentação suspeita, antes da partida eu já quero saber. E aí o comitê de crise vai acionar o compliance, o jurídico, a diretoria, o departamento de futebol, a comissão técnica, para ver o que fazer. “Olha, temos isso aqui, essas informações, o que vamos fazer? Ele vai para o jogo?”, porque é hipótese de tirar o cara do jogo ou falar: “Amigo, aconteceu isso aqui. Se você tomar esse cartão… [você] não faz falta, não”.
Porque, se tudo já ocorreu, não é mais auditoria. A premissa da auditoria interna é tentar ver a efetividade dos controles e, pelo menos do ponto de vista moderno — o que chamamos de abordagem baseada em risco —, tentar ser o mais preventivo possível.
Depois que ocorre esse tipo de situação, é muito complicado. Envolve mídia, já era. O dano reputacional já ocorreu, o dano técnico já ocorreu, o dano financeiro — você fez um investimento no jogador e perdeu. O que estamos tentando desenvolver é o contrário, é saber antes. Inclusive, se for possível, de terceiros ligados à pessoa. Quase nunca é o jogador, mas uma pessoa ligada a ele.
Quem tem dois cartões, monitoramos com mais profundidade. É um jogo propenso para o jogador forçar um cartão, até de boa-fé. E quem conhece futebol aposta nisso, então tem que olhar o volume, de onde veio etc., e isso os clubes não têm. Ter um sistema de monitoramento só para mim é um investimento que não consigo justificar. É muito alto, meu orçamento não permite. E aí apostamos na educação como forma de mitigar, mas quero cada vez mais conseguir ser preditivo.
Há também um dano psicológico no jogador. Ele está inocente, mas exposto ao meio midiático; qualquer movimento em campo fica sob suspeita. E, se tivéssemos uma ferramenta preditiva, poderíamos tirá-lo de um jogo de risco. Dizer “eu confio em você, mas precisamos mitigar o dano”.
SBC Notícias Brasil: O que você sente falta do mercado de apostas? Como o mercado pode ser de maior auxílio aos times de futebol?
Fernando Monfardini: Não estou sentado na mesa dos outros clubes para falar, mas me parece que a conversa só gira na parte de marketing e comercial. Sempre tivemos uma preocupação, desde o início, de que fosse uma conversa entre os departamentos de compliance. O processo de escolha do patrocinador envolveu due diligence das empresas. Escolhemos a H2bet levando em consideração critérios de reputação, avaliação de risco — fizemos todo um trabalho para nos sentirmos confortáveis. E nos sentimos confortáveis em assinar.
Setores pouco maduros nesse aspecto acham que, quando você faz isso, é porque está desconfiando. E, na verdade, é construção de confiança. É o contrário.
A H2bet eu só informei depois que fiz o due diligence. E ele [Rafael Rebelo] disse: “Fico feliz então, também fizemos de vocês”. Isso constrói uma relação de confiança. Tivemos uma conversa conjunta desde o começo: “O que podemos fazer em conjunto pela integridade?”. Trazendo isso também como questão de branding. Queremos que essa seja uma parceria reconhecida pelo sucesso comercial, tendo também a integridade como premissa conjunta.
Acho que essa articulação entre clube e patrocinadora deveria ocorrer com mais força. Os clubes precisam sentar e conversar para mitigarmos nossos riscos. Pensa bem: a relação de patrocínio é uma troca de imagem. Eu estou me associando a você, e você se associa a mim. Se você sofrer um respingo, ele vai me atingir. Se a minha patrocinadora tiver um problema, estou diretamente ligado. No mínimo, vai aparecer a camisa do time com a marca. Já atingiu. Tem que ser uma parceria e uma relação de confiança.
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