SBC Summit 2026: Khalid Ali, IBIA, analisa avanços e desafios do Brasil no combate à manipulação de resultados

Silhueta dinâmica de jogador de futebol em fundo verde
Crédito: Shutterstock

Com a expansão dos mercados regulados de apostas esportivas ao redor do mundo, o combate à manipulação de resultados e outras ameaças à integridade esportiva ganhou novos desafios e ferramentas mais sofisticadas de monitoramento. No Brasil, a criação de mecanismos obrigatórios de fiscalização e de compartilhamento de informações já começa a ampliar a capacidade de identificar atividades suspeitas, segundo a International Betting Integrity Association (IBIA).

Khalid Ali, LinkedIn.

Em entrevista exclusiva ao SBC Notícias Brasil, Khalid Ali, CEO da IBIA, avaliou o cenário global da manipulação esportiva, analisou os primeiros resultados da regulamentação brasileira e explicou por que a cooperação entre operadores, reguladores, entidades esportivas e autoridades é essencial para enfrentar ameaças cada vez mais sofisticadas.

O executivo também antecipou alguns dos temas que discutirá durante sua participação no SBC Summit 2026, através do painel “Modern Manipulation: Are Today’s Integrity Tools Built for Yesterday’s Threats?  

O SBC Summit acontecerá na Feira Internacional de Lisboa e na MEO Arena, na capital portuguesa, entre 29 de setembro e 1º de outubro de 2026. Ao longo de três dias, mais de 40 mil profissionais da indústria devem se reunir para discutir os principais temas do setor, ampliar o networking e explorar novas oportunidades de negócios.

O evento também reunirá autoridades, líderes do mercado e grandes nomes do esporte, incluindo o ícone do basquete, investidor e filantropo Michael Jordan. Confira abaixo nossa entrevista completa com Khalid Ali.

SBC Notícias Brasil: Como você descreveria o atual cenário global da manipulação de resultados relacionada às apostas esportivas? Os casos aumentaram ou diminuíram nos últimos anos?

Khalid Ali: A manipulação de resultados relacionada às apostas esportivas continua sendo um sério desafio para a integridade do esporte, mas esse cenário está evoluindo. É difícil avaliar o fenômeno apenas observando se o número de casos está aumentando ou diminuindo, já que o mercado global de apostas mudou significativamente nos últimos anos.

É importante destacar que um número crescente de jurisdições implementou modelos regulados para o mercado de apostas, incluindo mercados regulados em nível estadual nos Estados Unidos, no Canadá e em diversos países da América Latina. Isso trouxe maior supervisão, transparência e mecanismos de integridade mais robustos.

Por exemplo, Ontário lançou seu mercado regulado de jogos online em 2022, exigindo que operadores licenciados integrassem um organismo de monitoramento. Apesar de ser um mercado relativamente novo, a província já alcançou uma taxa de canalização de aproximadamente 91%.

O mercado regulado de apostas esportivas do Brasil, o maior da América Latina, entrou em operação em 2025 com requisitos de integridade semelhantes aos de Ontário. Como resultado, espera-se que o país alcance uma taxa de canalização de cerca de 80% até 2030, com a receita bruta de jogos (GGR) das apostas esportivas projetada para atingir R$ 28,8 bilhões (US$ 4,7 bilhões).

Esses avanços confirmam que uma regulamentação bem estruturada é uma parte importante da solução para garantir a integridade. Ao levar a atividade de apostas para um ambiente regulado, as jurisdições criam estruturas mais sólidas para monitoramento, comunicação e cooperação entre operadores, reguladores e organizações esportivas, permitindo que atividades suspeitas sejam identificadas e tratadas de forma mais eficaz.

SBC Notícias Brasil: Quais regiões ou países enfrentam atualmente os maiores desafios relacionados à integridade, e quais fatores estão impulsionando essas tendências?

Khalid Ali: Os desafios relacionados à integridade podem surgir em qualquer mercado, mas o nível de risco costuma ser influenciado pelo grau de maturidade do ecossistema de apostas esportivas como um todo.

As maiores vulnerabilidades tendem a estar em ambientes com pouca ou nenhuma regulamentação, baixa canalização para mercados de apostas licenciados, mecanismos insuficientes para monitorar e reportar atividades suspeitas e colaboração inadequada entre os diferentes atores envolvidos na integridade esportiva.

Em algumas jurisdições, por exemplo, atletas profissionais e oficiais podem atuar em condições de maior pressão financeira, especialmente quando os salários são inconsistentes ou mais baixos, e quando não existem – ou são insuficientes – programas de educação e canais claros para denunciar preocupações. Esses fatores podem aumentar a exposição a abordagens de pessoas que buscam manipular eventos esportivos e reduzir a capacidade de agir quando riscos são identificados.

O estabelecimento de um mercado de apostas bem regulado é fundamental para enfrentar essas vulnerabilidades, pois define responsabilidades claras, fortalece a supervisão e cria canais confiáveis para o compartilhamento de informações entre operadores, reguladores, organizações esportivas e atletas. Os modelos de integridade mais eficazes são aqueles que combinam uma regulamentação de mercado sólida, educação para atletas, monitoramento eficiente e cooperação entre todas as partes interessadas.

SBC Summit 2025, em Lisboa
SBC Summit 2025. Crédito: SBC.

SBC Notícias Brasil: No SBC Summit 2026, você participará do painel “Modern Manipulation: Are Today’s Integrity Tools Built for Yesterday’s Threats?”, ao lado de Ivan Gojic, Chief Sportsbook Officer (CSO) da Entain CEE. Você acredita que as ferramentas de integridade utilizadas atualmente pela indústria estão acompanhando a evolução das ameaças? Quais são as maiores lacunas em monitoramento e detecção, especialmente quando se trata de identificar manipulações em microeventos?

Khalid Ali: No fim das contas, a manipulação de apostas é uma forma de fraude contra a indústria regulamentada de apostas. Os operadores são diretamente impactados quando eventos esportivos são manipulados, razão pela qual proteger a integridade dos mercados de apostas é uma prioridade fundamental. Os operadores licenciados fizeram investimentos significativos em tecnologia de integridade, capacidades de monitoramento e sistemas de inteligência, além de terem um forte incentivo para continuar desenvolvendo essas ferramentas.

No entanto, o cenário de ameaças continua evoluindo. Organizações criminosas estão constantemente em busca de novas vulnerabilidades e oportunidades para obter lucros ilícitos, o que significa que os modelos de integridade precisam se adaptar continuamente. Embora coletar mais dados seja importante, o verdadeiro desafio é transformar esses dados em inteligência acionável, combinando informações sobre a atividade do mercado, indicadores comportamentais e um contexto mais amplo para identificar e responder aos riscos emergentes de forma mais eficaz.

Foi por isso que a IBIA atualizou sua Global Monitoring and Alert Platform (Global MAP) em 2024, garantindo que suas capacidades de monitoramento da integridade acompanhem a evolução do cenário de ameaças. A plataforma aprimorada fortalece a capacidade da IBIA de identificar padrões emergentes, analisar riscos e apoiar ações baseadas em inteligência, ajudando as partes interessadas a migrar de uma abordagem reativa para um modelo mais proativo de prevenção e detecção.

Um dos principais diferenciais da Global MAP é o fato de ela ser alimentada por inteligência fornecida pelos próprios operadores. A capacidade de ir além da movimentação das cotações e analisar a atividade em nível de conta é essencial para identificar manipulações em microeventos. Frequentemente, esses mercados apresentam menor liquidez, e atividades suspeitas nem sempre provocam mudanças significativas nas cotações. Por isso, o acesso aos dados subjacentes dos operadores é indispensável.

A Global MAP não é apenas uma atualização tecnológica; ela faz parte de um plano contínuo de desenvolvimento, projetado para aprimorar constantemente a plataforma e garantir que ela permaneça adaptável à medida que os métodos de manipulação e os desafios relacionados à integridade evoluem.

Também é importante reconhecer que redes criminosas frequentemente procuram ambientes não regulados e operadores sem licença, onde há menos obrigações de monitorar mercados, reportar atividades suspeitas ou manter controles robustos de integridade. Isso reforça a importância dos mercados regulados, nos quais a transparência, responsabilização e cooperação criam mecanismos de proteção mais sólidos.

Em relação aos microeventos e aos mercados secundários (side markets), embora eles exijam monitoramento eficaz, é importante não superestimar os riscos. As evidências indicam que, quando esses produtos são oferecidos em um mercado bem-regulado e sustentado por um sistema robusto de monitoramento da integridade, a incidência de problemas é muito baixa. Da mesma forma, é essencial garantir altos níveis de canalização para operadores regulamentados, já que limitar a oferta de produtos legítimos pode levar os consumidores a recorrer a mercados não regulados, onde não há transparência, monitoramento ou comunicação de atividades suspeitas de apostas.

A disponibilidade de uma ampla gama de produtos é fundamental para maximizar a canalização para o mercado regulado. Como destacou recentemente a International Federation of Horseracing Authorities (IFHA): “Quando o mercado legal não consegue igualar a variedade de produtos oferecidos pelo mercado ilegal, os consumidores migram”. 

A IFHA utiliza o relatório Availability of Sports Betting Products, elaborado pela H2 com base em dados dos membros da IBIA, para sustentar esse argumento. Segundo esse relatório, apesar dos membros da IBIA terem oferecido aproximadamente 425 mil partidas de futebol com mercados de cartões e/ou escanteios ao longo de sete anos, apenas 45 alertas foram reportados às autoridades competentes. Isso significa que 99,99% dos mercados secundários de apostas em futebol oferecidos nesse período não apresentaram qualquer preocupação relacionada à integridade.

SBC Notícias Brasil: O Brasil já tem aproximadamente 18 meses de operações de apostas regulamentadas. Como você avalia o cenário de integridade do país até o momento?

Khalid Ali: Embora seja importante reconhecer que a transição de um ambiente não regulamentado para um modelo regulamentado não acontece da noite para o dia, o mercado regulado de apostas do Brasil representa um avanço significativo para a integridade esportiva. Isso porque o país já estabeleceu muitos dos pilares necessários para um ecossistema robusto de integridade.

Uma das mudanças mais importantes é a exigência legal de que os operadores licenciados participem de um sistema de monitoramento de integridade. Isso significa que, à medida que os operadores licenciados ingressam no ambiente regulado e participam do monitoramento de integridade, há maior disponibilidade de dados, supervisão mais forte e mecanismos mais eficazes para identificar e lidar com atividades suspeitas. Os membros da IBIA representam aproximadamente 90% do volume de apostas dos operadores licenciados pelo governo federal no Brasil.

Os benefícios podem ser observados por meio da Global MAP da IBIA. Com o apoio de mais de 90 operadores, incluindo muitos dos maiores operadores do mundo, a plataforma monitora mais de US$ 300 bilhões em volume de apostas esportivas presenciais e online e mais de 1,5 milhão de eventos esportivos anualmente. Garantir que reguladores, diversas entidades esportivas e autoridades competentes tenham acesso à Global MAP representa um grande avanço na capacidade de detectar e combater a manipulação de resultados no Brasil.

Na IBIA, temos experiência direta com muitas das outras mudanças positivas que estão ocorrendo no Brasil. Isso inclui o estabelecimento de acordos de cooperação com o Ministério do Esporte e o Ministério da Fazenda do Brasil, garantindo que atividades suspeitas de apostas identificadas por meio da Global MAP da IBIA possam ser compartilhadas com as autoridades competentes para avaliação e adoção de medidas.

Outro exemplo é o Grupo de Trabalho de Integridade da IBIA no Brasil, que reuniu, em abril, autoridades governamentais, organizações esportivas e operadores licenciados para discutir abordagens operacionais, compartilhar conhecimentos e fortalecer a capacidade do país de prevenir e responder aos riscos de manipulação de resultados.

A integridade também depende de um ecossistema mais amplo que dê suporte aos mercados regulados. O lançamento do Payment Provider Forum da IBIA tem um papel importante nessa área, ao reunir os principais participantes do setor de pagamentos para abordar riscos emergentes, fortalecer mecanismos de proteção e ajudar a garantir que os fluxos financeiros relacionados à atividade de apostas operem dentro de uma estrutura responsável e transparente. Essa perspectiva mais ampla é cada vez mais importante, já que os riscos de integridade podem envolver não apenas padrões de apostas, mas também as redes financeiras mais abrangentes que dão suporte a atividades ilícitas.

Embora avanços reais tenham sido alcançados, o foco deve estar em continuar fortalecendo o mercado regulado, garantindo altos níveis de canalização e estabelecendo e consolidando os padrões de integridade necessários para proteger o esporte e os consumidores.

SBC Notícias Brasil: A IBIA observou mudanças significativas nas atividades suspeitas de apostas envolvendo esportes brasileiros desde o lançamento do mercado regulado? Que lições o Brasil pode aprender com mercados mais maduros quando se trata de prevenir e de combater a manipulação de resultados?

Khalid Ali: A transição para um mercado regulado criou um ambiente mais estruturado para identificar e lidar com riscos relacionados à integridade. Como resultado, o que observamos não é simplesmente uma mudança no nível de atividade suspeita, mas uma melhora significativa na visibilidade e na capacidade de detectar, analisar e responder a possíveis preocupações.

Por exemplo, em 2024, ano anterior ao lançamento do mercado regulado de apostas, a IBIA reportou sete atividades suspeitas envolvendo o Brasil. Em 2025, quando os operadores ingressaram no mercado regulamentado com a obrigação de participar de um sistema de monitoramento de integridade, o número de alertas reportados aumentou para 25. Isso não significa necessariamente que as ameaças à integridade aumentaram, mas confirma que nossa capacidade de detectar e tomar medidas contra atividades suspeitas aumentou de forma significativa.

O Brasil, portanto, está se beneficiando de muitas das lições aprendidas em outras partes do mundo, incluindo o estabelecimento de mecanismos de integridade desde os primeiros estágios de desenvolvimento de seu mercado regulado. Mas esse é um processo de mão dupla.

O Brasil também está inovando e, tanto na região quanto em um contexto mais amplo, também podemos aprender com um dos maiores mercados de apostas esportivas do mundo e com as inovações que estão surgindo no país. Isso inclui a iniciativa voltada aos provedores de pagamento que mencionei anteriormente.

SBC Notícias Brasil: Se você pudesse recomendar uma ação prioritária para operadores, reguladores e entidades esportivas de todo o mundo para lidar melhor com as ameaças modernas de manipulação, qual seria e por quê?

Khalid Ali: Se não se importar, uma única prioridade é difícil demais, então vou indicar duas!

Precisamos fortalecer a proteção da integridade em todo o ciclo de vida de uma ameaça: prevenir a manipulação antes que ela aconteça, ao mesmo tempo em que garantimos que a inteligência e as capacidades adequadas estejam disponíveis para responder quando os riscos surgirem. Precisamos construir uma cultura sólida de integridade esportiva.

Isso significa garantir que todos os envolvidos no ecossistema de integridade esportiva entendam que têm interesse e responsabilidade em proteger o esporte. A educação é fundamental para construir essa cultura e precisa ser uma prioridade. Atletas e outros participantes, por exemplo, precisam ter uma compreensão clara dos riscos de manipulação, das pressões que podem enfrentar e das consequências de se envolverem nessas práticas. Essa é uma das formas mais eficazes de reduzir vulnerabilidades antes que uma ameaça se concretize.

Ao mesmo tempo, os métodos utilizados por criminosos estão se tornando mais rápidos, sofisticados e cada vez mais interconectados. Isso significa que o monitoramento tradicional baseado apenas na movimentação das cotações não é mais suficiente. Outra prioridade, portanto, deve ser transformar dados e conhecimento especializado em informações acionáveis. Isso permitirá identificação mais precoce dos riscos, investigações mais eficazes e respostas mais robustas quando surgirem preocupações relacionadas à integridade.

Juntas, essas duas prioridades criam uma abordagem mais resiliente: reduzindo a probabilidade de ocorrência de manipulações e garantindo que os sistemas adequados estejam preparados para proteger o esporte quando novos desafios surgirem.


A entrevista com Khalid Ali, da IBIA, faz parte de uma série de conversas que o SBC Notícias Brasil está realizando com palestrantes confirmados do SBC Summit 2026. Confira também:

William Bonalume, Open Gaming, analisa integração tecnológica no setor de apostas.

Vanessa Arteaga, Aposta Ganha, explica como transformar dados em campanhas eficientes.

Floris Assies, Better World Casinos, antecipa debates do SBC Summit 2026 e defende jogo responsável integrado ao produto.


Os ingressos para o SBC Summit 2026 estão disponíveis aqui


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