Na segunda-feira, 28 de julho, o Google apresentou ao público britânico o seu “novo modelo com inteligência artificial para resultados de busca”.

O anúncio, feito de forma discreta por meio de um post no blog assinado por Hema Budaraju, vice-presidente de produto, marca a maior mudança na principal função da empresa desde que Larry Page e Sergey Brin lançaram o motor de busca do Google, em setembro de 1998. Desde então, o Search tem sido a base do crescimento da gigante da tecnologia, consolidando-se como o principal portal de informação para o público digital. As informações são de Ted Menmuir, no iGaming Expert.
A novidade foi introduzida com uma linguagem suave: “Imagine perguntar ao Google Search o que estiver em sua mente — por mais bagunçado ou complicado que seja — e receber instantaneamente uma resposta baseada em IA que realmente entende sua pergunta, oferece a informação que você procura e ajuda a se aprofundar no tema”.
Por trás do tom casual, no entanto, esconde-se uma mudança significativa. O novo “modelo com IA” do Google não se limita mais a indexar termos e apresentar links. Em vez disso, interpreta perguntas com foco em um engajamento individualizado para oferecer uma resposta direta, marcando uma mudança clara no uso do Search com base no modelo de linguagem Gemini 2.5.
Embora o Google afirme que as páginas tradicionais de resultados continuarão existindo, as atualizações ao longo do último ano apontam para uma transição: os resumos gerados por IA estão se tornando a experiência padrão. Os tradicionais “10 links azuis” deixam de ser o centro da busca e passam a ocupar um papel secundário.
Sites orgânicos são os mais ameaçados pela mudança
A maior preocupação para o restante da internet não é o que o modo com IA mostra, mas o que ele deixa de mostrar. A apreensão entre editoras e veículos de mídia é clara: a visibilidade no Search continua sendo uma questão de sobrevivência.
Só no Reino Unido, o Google detém mais de 90% do mercado de buscas — um domínio estabelecido muito antes de a inteligência artificial se tornar protagonista nesse cenário.
Sem concorrentes ou governos capazes de desafiar sua posição, o Google mantém seu monopólio sobre o Search, independentemente de sua nova forma. Críticas, portanto, são esperadas.
“Este é mais um exemplo do Google usando sua posição dominante para forçar veículos de notícia a permitir que seu conteúdo seja absorvido por sistemas de IA”, afirmou Owen Meredith, CEO da News Media Association, ao jornal The Daily Telegraph, que classificou a mudança como “um grande abalo que deve causar turbulência na internet”.
De acordo com o jornal, os editores “já estavam sofrendo com mudanças anteriores na ferramenta de busca do Google” e veem essa atualização como um agravamento dos seus problemas.
A preocupação é fundamentada. Dados da Pew Research citados pelo Telegraph mostram que os resultados com IA reduzem drasticamente a interação do usuário com links de terceiros. Quando a resposta inclui um resumo de IA, os usuários clicam em links apenas 8% das vezes, contra 15% quando não há IA envolvida. Se os links estiverem embutidos dentro do texto gerado por IA, essa taxa cai para 1%. São números alarmantes para qualquer negócio digital que dependa de descoberta orgânica.
O dilema dos editores se agrava com a impossibilidade de exclusão: impedir que o Google rastreie seu conteúdo para treinar a IA até pode impedir a coleta de dados, mas também resulta em rebaixamento nos resultados de busca, o que equivale à perda total de visibilidade.
A Autoridade de Concorrência e Mercados do Reino Unido (CMA) recentemente classificou o Google como detentor de “status de mercado estratégico” na área de buscas, o que pode, futuramente, fortalecer o poder de barganha dos produtores de conteúdo. Mas a regulamentação anda devagar, enquanto a evolução da IA avança em todos os grandes players de tecnologia.
No mês passado, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) anunciou a adesão do Google ao conselho, tornando-se a primeira big tech a integrar o órgão. A big tech participará de processos de autorregulamentação publicitária, enquanto que o CONAR colaborará com o programa Google Priority Flagger, em que é possível reportar possíveis violações de políticas por meio de canais exclusivos.
Mudanças de busca do Google afetam setor de apostas
Outros setores também começam a sentir os efeitos do novo ambiente, embora com mais ambivalência. No mercado de apostas e jogos on-line, o modo com IA pode representar tanto uma ameaça quanto uma oportunidade. De um lado, a capacidade da IA de comparar plataformas ou recomendar cassinos pode reduzir o tráfego gerado por afiliados e estratégias de SEO.
Por outro lado, num mercado saturado, um novo “nível de descoberta” pode abrir caminhos para alcançar o usuário de forma diferente, desde que as empresas consigam se adaptar aos algoritmos opacos do Google.
Para a especialista em SEO para jogos on-line Ivana Flynn, o sucesso na nova experiência de busca depende da precisão e autoridade das respostas fornecidas. Apesar das mudanças no algoritmo, ela acredita que o Google continua priorizando a confiança como princípio central.
“Todo mundo está preocupado com o impacto dos resumos com IA — claro, todos tememos o desconhecido. Mas aqui está o que sabemos: se quiser aparecer nos resumos da IA, seu SEO precisa trazer as informações mais detalhadas possíveis. A parte técnica do SEO não mudou — conteúdo de qualidade continua importante, e os links ainda são essenciais. Então, faça o seu melhor trabalho! A IA vai afetar o tráfego orgânico, com certeza. Por isso, é essencial ser recomendado como uma marca reconhecida, ou seja, construir uma boa marca. Eu não tentaria atalhos; investiria em resultados consistentes e duradouros”, comentou.
Apesar das dúvidas, o Google não parece incomodado. Tudo em sua comunicação, dos anúncios de produto ao design da interface, aponta para uma única direção. A IA será o novo princípio organizador da busca. Resumos gerados por IA específicos para cada dispositivo, entradas multimodais, interações por voz, busca visual — esses elementos não são recursos adicionais, mas parte do plano estrutural. O Google não se vê mais como um curador da web, mas como seu intérprete mais lógico.
O que os editores temem não é apenas a perda de tráfego, mas o fato de serem substituídos por uma inteligência que se alimenta do trabalho deles e, ainda assim, afasta o público de seus sites. Como em todas as revoluções tecnológicas do passado, o poder e a substituição são determinados por quem controla a interface, lição que o Google aprendeu ainda em 1998.
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