Wanor França, Kindbridge Research Institute, analisa diferenças entre EUA e Brasil no jogo responsável

As bandeiras dos Estados Unidos e do Brasil se unindo
Crédito: Shutterstock

Wanor França, membro do conselho do Kindbridge Research Institute e sócio e diretor de Crescimento e Receita Estratégica da CCT, conversou com exclusividade com o SBC Notícias Brasil sobre o jogo responsável em apostas online e em cassinos. Durante a primeira parte da entrevista, o especialista analisou o mercado brasileiro e o comparou ao dos Estados Unidos, destacando as principais diferenças entre as duas regiões.

Na continuação da entrevista, que será publicada na próxima semana, os cassinos tribais estarão em destaque, com discussões sobre o funcionamento desse modelo, sua relevância econômica e o equilíbrio entre interesses comerciais e responsabilidade social.

SBC Notícias Brasil: Como você avalia o atual estágio do debate sobre jogo responsável no Brasil? Você acredita que o Brasil está conseguindo equilibrar a expansão do mercado regulado e a proteção ao consumidor?

Wanor França, LinkedIn.

Wanor França: Honestamente, o Brasil está em um momento crítico e ao mesmo tempo promissor. 

A SPA emitiu a Portaria nº 1.231/2024, que estabelece diretrizes claras para operadoras sobre jogo responsável e proteção ao jogador, incluindo ferramentas para identificar jogadores em risco e protocolos de autoexclusão. Isso é um sinal positivo. Mas ter as regras no papel é apenas o primeiro passo. O que vai definir se o Brasil realmente consegue equilibrar expansão com proteção é a capacidade de enforcement – fiscalização constante, penalidades reais para quem não cumpre e uma cultura interna nas operadoras que vá além do compliance mínimo. 

O risco maior neste momento não é regulatório: é a velocidade. O mercado cresceu rápido demais para a infraestrutura de proteção acompanhar. Vemos isso em todo novo mercado cuja regulamentação acompanhei ao longo dos anos.

SBC Notícias Brasil: Em comparação aos Estados Unidos, onde o Brasil se encontra (atrasado, na média, avançado) no desenvolvimento de políticas de prevenção à ludopatia?

Wanor França: Na minha avaliação, o Brasil está atrasado na execução, mas não necessariamente em intenção regulatória. O fato de o Brasil ter se espelhado em mercados maduros ao construir seu framework regulatório é positivo, a Portaria 1.231/2024 exige mecanismos de autoexclusão facilmente acessíveis e visíveis nas plataformas. 

Mas nos EUA, chegamos onde estamos depois de décadas de erros, pressão da sociedade civil e bilhões investidos em pesquisa. A indústria americana destina quase meio bilhão de dólares por ano em iniciativas de jogo responsável, incluindo pesquisa independente, campanhas educativas, treinamento extensivo de funcionários e financiamento de serviços para jogadores com problemas. 

O Brasil ainda precisa construir esse ecossistema. Não é questão de inteligência regulatória, é questão de maturidade de mercado. 

SBC Notícias Brasil: Quais medidas adotadas nos EUA você considera mais eficazes no combate ao jogo patológico?

Wanor França: Das medidas que vejo funcionando na prática, destacaria três:

  • Treinamento de funcionários de linha de frente 

No nosso modelo, cada dealer, caixa e atendente é treinado para reconhecer sinais de comportamento problemático. Eles são os primeiros a perceber quando alguém passou horas na mesa sem comer, sem dormir ou apostando com dinheiro que claramente não tem.

  • Autoexclusão com integração entre propriedades

Em estados como Nevada e New Jersey, as listas de autoexclusão são compartilhadas entre os cassinos. Operadoras e fornecedores, em sua maioria, implementam programas de jogo responsável que vão além dos requisitos mínimos legalmente exigidos. 

Isso é fundamental: exclusão em um casino não pode ter valor se o jogador simplesmente cruza a rua para o próximo. 

  • Limites de depósito e ferramentas de monitoramento em tempo real

No ambiente digital, essa é a fronteira mais importante agora. Os sistemas que permitem ao próprio jogador definir limites e que tornam difícil (não apenas possível) aumentá-los impulsivamente fazem diferença real.

SBC Notícias Brasil: O que o mercado brasileiro pode aprender com a experiência norte-americana em relação à proteção do jogador?

Wanor França: A principal lição: não espere a crise para agir. Nos EUA, muitas das melhores políticas de proteção surgiram em resposta a escândalos, processos judiciais, ou pressão política depois que o dano já estava feito. O Brasil tem a vantagem rara de poder construir o sistema certo desde o início.

Outro aprendizado importante: a regulação não substitui a cultura interna. As operadoras precisam entender que jogo responsável não é custo – é reputação, é licença de longa duração, é relacionamento com o regulador. As empresas que tratam isso como burocracia são as mesmas que aparecem nos noticiários errados depois.

SBC Notícias Brasil: Como as diferenças culturais entre o Brasil e os EUA impactam a percepção sobre as apostas online e o jogo patológico?

Wanor França: Essa é uma questão que me preocupa bastante no contexto brasileiro. Nos EUA, há décadas de conversa pública sobre vício em jogo como questão de saúde mental. Não é perfeito, mas o estigma é menor do que já foi. No Brasil, a combinação de uma cultura de “jeitinho”, com o entusiasmo pelo futebol e pelas bets, cria um ambiente onde a linha entre entretenimento e comportamento problemático fica menos visível.

O outro fator cultural relevante é o acesso via celular. O Brasil tem um dos maiores índices de penetração de smartphones da América Latina. Isso significa que o cassino está literalmente no bolso de todo mundo, 24 horas por dia. Nos EUA, quando começamos a regular o online de verdade, ficou claro que o perfil do jogador problemático online é diferente, mais jovem, mais isolado, e o problema se desenvolve mais rápido.

SBC Notícias Brasil: Nos EUA, qual é o papel das operadoras na promoção do jogo responsável? De modo geral, esse compromisso vem mais da regulamentação ou da própria maturidade do mercado, considerando as diferenças regulatórias entre estados?

Wanor França: É os dois, mas em proporções diferentes dependendo do estado. Os programas de jogo responsável da indústria operam em conformidade com e em paralelo às leis estaduais. A maioria das operadoras implementa voluntariamente medidas que vão além dos requisitos mínimos. 

Mas vou ser honesto: a maturidade de mercado só existe porque a regulação criou o piso mínimo das consequências para quem ignora. Operadoras que fazem mais do que o exigido geralmente fazem isso por três razões: reputação de longo prazo, pressão de acionistas ou investidores e aprendizado com os erros de quem veio antes. No Brasil, com mercado novo e competição intensa por market share, o risco é que as operadoras priorizem crescimento sobre proteção. É exatamente aí que o regulador precisa ser firme desde o início.

SBC Notícias Brasil: Na sua visão, quais sinais deveriam servir de alerta para reguladores e operadores brasileiros neste início de mercado regulado?

Wanor França: Da minha experiência, os sinais que antecipam problemas sérios são:

• Aumento rápido de contas criadas com CPFs de terceiros. É sinal de que pessoas em autoexclusão ou endividadas estão contornando o sistema.

• Volume anormal de transações de baixo valor em sequência. Comportamento clássico de jogador em espiral.

• Crescimento desproporcional de apostas esportivas em modalidades de resultado muito rápido. Micromercados, como resultado do próximo escanteio, são os produtos mais associados a comportamento compulsivo.

• Ausência de dados. Se as operadoras não estão coletando e reportando dados de comportamento ao regulador, há algo errado, seja tecnicamente ou intencionalmente.

O Brasil também precisa monitorar de perto o impacto em famílias de baixa renda. Há evidência clara nos EUA de que, sem proteções adequadas, mercados regulamentados novos tendem a concentrar o dano exatamente nas populações mais vulneráveis.

SBC Notícias Brasil: Como organizações de pesquisa e saúde mental, como o Kindbridge Research Institute, podem contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas no Brasil?

Wanor França: O Kindbridge Research Institute é uma organização sem fins lucrativos focada em pesquisa e soluções para vícios comportamentais e saúde mental. 

Em abril de 2025, lançou, em parceria com UCLA, a Financial Stability and Responsible Gambling Initiative, o primeiro esforço coordenado dos EUA para tratar o dano financeiro relacionado ao jogo como questão de saúde pública e estabilidade financeira, reunindo especialistas de finanças, saúde e pesquisa para desenvolver estratégias práticas de redução de danos. 

O estudo publicado em 2026 mostra que o jogo nos EUA migrou rapidamente de uma atividade predominantemente baseada em dinheiro físico para uma experiência digital normalizada no cotidiano financeiro, e que os indicadores de dano frequentemente passam despercebidos até que o problema se intensifica. 

Para o Brasil, o valor do Kindbridge não é só a pesquisa em si, mas é o modelo de colaboração entre setores que normalmente não conversam: bancos, operadoras, plataformas de pagamento e sistemas de saúde. O Brasil poderia se beneficiar enormemente de uma parceria com o instituto para adaptar esse framework à realidade local, antes que o volume de casos problemáticos justifique a existência do programa pela força da necessidade.


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