Willer Tomaz movimentou R$ 5 bilhões na Blaze; SPA aponta falhas na prevenção à lavagem de dinheiro

Investigador usando lupa para apurar fatos.
Crédito: Garun .Prdt / Shutterstock

O advogado Willer Tomaz de Souza movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas na Blaze em 2025. As transações chamaram a atenção da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), que identificou possíveis falhas nos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro da plataforma, operada no Brasil pela Foggo Entertainment Ltda.

As informações foram reveladas pelo UOL, em reportagem de Natália Portinari e Fabio Serapião publicada na terça-feira, 20, e também confirmadas pelo JOTA, que teve acesso a documentos do Ministério da Fazenda.

Segundo uma nota técnica da SPA, obtida pelo UOL, Tomaz depositou R$ 258 milhões na Blaze durante o ano passado, tornando-se a pessoa física que mais transferiu recursos para plataformas de apostas no Brasil naquele período. O montante foi quase duas vezes superior ao registrado pelo segundo maior depositante.

O volume acumulado de aproximadamente R$ 5 bilhões não representa dinheiro novo, uma vez que inclui valores reapostados. No mesmo período, o advogado retirou quase R$ 200 milhões da plataforma.

De acordo com o JOTA, foram realizadas mais de 36 mil apostas ao longo de 2025. Em 140 delas, os ganhos individuais alcançaram pelo menos R$ 1 milhão, somando mais de R$ 152 milhões. Os registros também apontam ganhos e perdas acumulados próximos de R$ 5 bilhões cada.

SPA aponta falhas nos controles da Blaze

A SPA concluiu que a Blaze não submeteu as movimentações de Tomaz à análise necessária para identificar possíveis operações de lavagem de dinheiro, apesar dos valores elevados e da frequência das transações.

Um dos episódios identificados ocorreu em 30 de outubro de 2025, quando o advogado depositou R$ 7 milhões em 14 transferências de R$ 500 mil. No dia seguinte, realizou saques de R$ 6 milhões em apenas 18 minutos.

A documentação também aponta que, em novembro, Tomaz realizou 12 apostas que somaram mais de R$ 5 milhões em um intervalo de cinco minutos.

Conforme revelou o UOL, a Blaze comunicou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apenas sete operações suspeitas em 2025, todas relacionadas a apostas inferiores a R$ 1 mil. As movimentações de Tomaz, por sua vez, não foram objeto de comunicação ou análise específica, segundo a SPA.

O órgão também identificou inconsistências nas informações prestadas pela operadora sobre seus sistemas de monitoramento. Em março de 2025, a empresa informou que utilizava ferramentas automatizadas para acompanhar transações, mas reconheceu, em dezembro, que não dispunha desse recurso.

Diante dos problemas identificados, a SPA recomendou a apuração da conduta da Foggo Entertainment para eventual abertura de processo administrativo sancionador, além da avaliação de medidas cautelares, incluindo a possibilidade de suspensão temporária das atividades da operadora.

A nota técnica não concluiu que houve lavagem de dinheiro, mas apontou operações consideradas atípicas que deveriam ter sido examinadas pela empresa.

Willer Tomaz também movimentou recursos na 7K

Além das transações na Blaze, Willer Tomaz realizou depósitos de R$ 1,3 milhão na 7K, marca pertencente ao grupo Ana Gaming, segundo o UOL. Na plataforma, o advogado acumulou R$ 4,8 milhões em apostas e realizou saques de R$ 426 mil.

A Ana Gaming está entre as empresas investigadas na Operação Narco Bet, deflagrada em outubro de 2025, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas por meio de plataformas de apostas e criptomoedas.

No âmbito da investigação, a Justiça Federal determinou o bloqueio de R$ 631 milhões em bens do grupo. Não há indicação de que Tomaz seja um dos investigados desta operação.

Procurada pelo UOL, a Ana Gaming afirmou que segue as exigências legais e regulatórias e que não comenta informações de clientes ou processos protegidos por sigilo.

Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio Bolsonaro

Selfie de Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.
Crédito: Willer Tomaz/X

As movimentações na Blaze também são examinadas pela Polícia Federal (PF), que investiga a possibilidade de Tomaz ter utilizado apostas para ocultar a origem ou o destino de recursos financeiros.

Os investigadores também desconfiam que o advogado seja sócio oculto da operadora. Tomaz nega qualquer participação societária na Blaze.

O advogado também é investigado em um inquérito que apura uma possível atuação conjunta com Flávio Bolsonaro (PL), senador, candidato à presidência da República e seu amigo pessoal, em um esquema de lavagem de dinheiro. O procedimento tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Outro lado

Em nota enviada à imprensa, Flávio Bolsonaro classificou as suspeitas como falsas.

Em manifestação encaminhada ao UOL e ao JOTA, a defesa de Tomaz afirmou que os valores utilizados nas apostas possuem origem lícita, são compatíveis com os rendimentos do advogado e foram declarados à Receita Federal.

A defesa do advogado também negou o uso de ferramentas automatizadas ou de transferências fracionadas com a finalidade de evitar mecanismos de fiscalização.

Já sobre a 7K, a defesa de Tomaz declarou que ele utilizou a plataforma exclusivamente como cliente, sem qualquer relação comercial ou societária com a empresa.

Procurada, a Foggo Entertainment, controladora da Blaze, não quis se manifestar sobre as suspeitas envolvendo Thomaz. A empresa também é investigada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).


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