No dia 1º de novembro de 2023, Bruno Henrique levou um cartão amarelo em duelo contra o Santos, válido pela 31ª rodada do Brasileirão. No dia 5º de novembro de 2024, a operação spot-fixing foi deflagrada pela Polícia Federal, investigando o atleta, familiares e amigos por uma suposta manipulação de resultados. Em junho de 2025, Bruno Henrique foi denunciado pelo Ministério Público do Distrito Federal por sua suposta participação em um esquema de fraude esportiva e estelionato contra casas de apostas. Estamos em julho de 2025, e, até o presente momento, o atacante segue atuando normalmente pelo Flamengo.
No dia 3º de setembro de 2022, Alef Manga recebeu um cartão contra o América-MG, em duelo válido pela 25ª rodada do Brasileirão. Em julho de 2025, o atacante se tornou réu pelo envolvimento em manipulação de resultados. Em agosto de 2023, Alef Manga foi suspenso por 360 dias pelo STJD. O atacante só voltou a atuar em outubro de 2024, e atualmente joga pelo Avaí, que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro.
Os casos têm algumas diferenças claras. Bruno Henrique não recebeu nenhum dinheiro de maneira direta, e teria supostamente apenas auxiliado terceiros. Já Alef Manga, por outro lado, recebeu – de acordo com as investigações – cerca de R$ 45 mil para receber o cartão. Apesar das diferenças, não deixa de ser surpreendente o tratamento diferente dado aos atletas.
Enquanto Manga foi prontamente afastado pelo Coritiba após a apresentação da denúncia, Bruno Henrique foi defendido publicamente pelo Flamengo, que citou a “presunção de inocência” como argumento em sua nota oficial. Além disso, os casos andam em ritmos diferentes. Enquanto Manga foi suspenso menos de um mês após virar réu, Bruno Henrique segue atuando, com o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) tendo deixado claro que não irá pedir a suspensão preventiva do atleta.
Apesar de não ter recebido dinheiro diretamente, o caso do atacante do Flamengo se torna ainda mais estranho pelo status do atleta. Ídolo da torcida rubro-negra, Bruno Henrique renovou o contrato no fim de 2024, reajustando o salário para cerca de R$ 1,9 milhão por mês. Com um salário tão grande e estando em evidência, o que justifica arriscar a carreira por valores tão baixos?
Acredito que casos como esse possam ocorrer por uma soma de fatores, que vão desde o desconhecimento da lei, o desconhecimento do que é considerado manipulação e até mesmo por conta da maneira como sociedade e imprensa tratam atletas de alto nível. Muitas vezes, esses jogadores são colocados em um pedestal, o que acaba criando um distanciamento das normas sociais.
Alef Manga e diversos outros atletas suspensos e até banidos pela Operação Penalidade Máxima nunca tiveram o mesmo status e vencimentos do que grandes jogadores como Bruno Henrique. Gabriel Tota, banido pelo STJD (em decisão ratificada pela FIFA), revelou em entrevista ao Globo Esporte que nunca tinha visto uma quantia tão grande quanto os R$ 110 mil que foi prometido para ajudar no aliciamento de atletas do Juventude.
Enquanto um atleta jovem – Tota tinha 22 anos na época do banimento – vê sua carreira encerrar por ser ludibriado por uma promessa de um dinheiro fácil, um atleta de elite, com salário na casa dos R$ 2 milhões, segue atuando mesmo após ter, supostamente, participado de um esquema de manipulação de resultados.
Os casos de Manga e Bruno Henrique são similares em muitos pontos. Nos dois casos existem dezenas de conversas entre os atletas e terceiros, falando abertamente sobre o recebimento de um cartão. O que difere os casos é, além do recebimento de propina por parte da Manga, a existência de uma rede criminosa por trás.
Existem, no entanto, atenuantes tanto para Manga como para Tota. Diferentemente de Bruno Henrique, os dois são atletas de outro patamar financeiro, que vivem uma situação de vulnerabilidade que um jogador do status do Bruno Henrique não vive. Se arriscar por esse dinheiro, na situação deles, é mais compreensível.
Existe uma falta de sensibilidade por parte da justiça em alguns casos de manipulação, principalmente em casos que envolvem atletas de divisões inferiores. Muitas vezes, o ato se dá por conta de uma vulnerabilidade financeira, de jogadores que recebem pouco – isso quando não existe um atraso considerável de salário, algo comum na realidade brasileira.
É muito mais fácil punir com a mão pesada quem não tem visibilidade, é muito mais fácil suspender e afastar atletas que não contam com vencimentos milionários. Infelizmente, o tratamento desses casos ainda deixa claro o quanto a cor da camisa ainda segue sendo determinante para casos de manipulação de resultados.












