Elder Caturani, ex-COO da Meridianbet, questionou as prioridades do governo brasileiro em relação ao mercado de apostas online. Enquanto o debate público tem concentrado esforços em temas como jogo responsável, proteção ao apostador e prevenção à ludopatia, a distribuição dos recursos arrecadados pelo setor passou a ser analisada sob outra perspectiva.
Em publicação no LinkedIn, Caturani indagou por que a saúde pública, frequentemente apontada como uma das principais preocupações relacionadas às apostas, recebe apenas 1% dos recursos destinados pela legislação ao setor.
Com uma contribuição crescente aos cofres públicos, o mercado regulado de apostas do Brasil registrou arrecadação próxima de R$ 6 bilhões em impostos nos primeiros cinco meses de 2026, valor 86% superior ao registrado no ano anterior.
Apesar da relevância econômica do segmento, o setor continua enfrentando um ambiente regulatório cada vez mais restritivo, com novas regras voltadas à atuação das empresas licenciadas. Ao mesmo tempo, operadores ilegais ainda concentram cerca de 50% do volume de apostas no país, criando um cenário de concorrência desleal e dificultando o fortalecimento do mercado regulado.
Caturani trouxe para o debate a distribuição dos recursos arrecadados pelo setor. Atualmente, as maiores parcelas são destinadas ao esporte (36%) e ao turismo (28%). Segundo a legislação vigente, a segurança pública recebe 13,6% — sendo 12,6% destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública e 1% ao Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras —, enquanto a educação conta com 10% e a saúde com 1%.
Na avaliação do executivo, o atual modelo de distribuição não reflete a relevância atribuída pelo próprio governo a determinadas pautas, principalmente quando consideradas as discussões sobre prevenção e tratamento da dependência em jogos.
O combate à ludopatia aparece como um dos principais argumentos utilizados nos debates regulatórios e legislativos sobre apostas. No entanto, Caturani defende que os recursos destinados pelo setor deveriam acompanhar essa prioridade, com maior direcionamento para áreas diretamente relacionadas à saúde e à educação.
“O setor já contribui muito em impostos e empregos. Falta o governo decidir o que é prioridade de verdade”, afirmou o executivo.
A opinião acerca dos repasses para o Ministério da Saúde não é exclusiva de Caturani. Em maio, Cristiano Costa, psicólogo e diretor de Conhecimento (CKO) da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (EBAC), defendeu repasses maiores para a saúde em entrevista ao SBC Notícias Brasil.
A discussão evidencia um ponto central para a evolução do mercado brasileiro: além de estabelecer regras para a operação das apostas, é necessário definir como os recursos gerados pelo setor serão utilizados e quais áreas devem receber maior atenção dentro da política pública.
O jogo responsável deixou de ser apenas uma obrigação das empresas e passou a integrar o discurso institucional sobre a regulamentação. Entretanto, políticas efetivas de prevenção exigem investimentos em estudos, capacitação de profissionais de saúde, atendimento especializado e campanhas de conscientização.
Nesse cenário, a destinação dos recursos arrecadados pelo setor deve ganhar relevância. Mais do que estabelecer regras para operadores e apostadores, a regulamentação precisa considerar como a arrecadação gerada pelo mercado pode contribuir para enfrentar os desafios associados à atividade. O alinhamento entre discurso, investimento e políticas públicas será um dos principais indicadores da maturidade do mercado brasileiro de apostas.
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