“Se você realmente quer visões sobre o futuro, precisa perguntar aos artistas”, disse David Birch ao Payment Expert sobre pagamento por biometria.
Anos atrás, Birch, comentarista de finanças digitais, conduziu um workshop com estudantes de arte, pedindo que imaginassem o futuro dos pagamentos. As ideias eram engraçadas, estranhas e, de certa forma, proféticas. Um dos alunos visualizou um mundo em que as pessoas receberiam seus salários por meio de gestos com as mãos, em que diferentes movimentos ou poses acionariam diferentes resultados.

Esse futuro não está tão distante.
Na Tailândia, a Tencent está testando pagamentos por leitura da palma da mão em lojas de conveniência e estabelecimentos de varejo, com o objetivo de superar os códigos QR. Na China, a Alipay integrou sua tecnologia de pagamento a óculos de realidade aumentada, permitindo que os usuários olhem para a etiqueta de um produto e confirmem o pagamento com um comando de voz.
À medida que as fintechs correm atrás do conceito de embedded finance e experiências de usuário, as biometrias estão emergindo como a interface definitiva. Seja por meio de mãos, rostos ou gestos, o setor de pagamentos está entrando em uma era em que pagar pode exigir pouco mais do que simplesmente estar presente.
Casas de apostas podem aproveitar desse método novo e inteligente para facilitar processos de pagamento?
Pagamento por biometria como nova interface
Um dos principais impulsionadores das inovações recentes da Tencent e da Alipay tem sido substituir os pagamentos por QR Code, ou pelo menos tornar a experiência do cliente ainda mais fluida.
Os QR Codes se tornaram parte central da infraestrutura de pagamentos digitais no mundo todo, elogiados por sua facilidade de uso e baixo custo.
Em mercados como o Brasil, o Pix mostrou como soluções baseadas em QR podem expandir significativamente a inclusão financeira e oferecer uma alternativa eficaz às infraestruturas tradicionais de cartões ou pontos de venda.
Até março de 2025, o Pix processava cerca de 6,3 bilhões de transações por mês, com um recorde diário de 252,1 milhões de transações no valor de US$ 22,75 bilhões (R$ 124,4 bilhões) no dia mais movimentado de dezembro de 2024. Com 182 milhões de usuários ativos — cerca de 87% da população adulta brasileira —, o sucesso do Pix destaca como os pagamentos via QR são preferidos e podem impulsionar a inclusão financeira.
No entanto, a indústria de pagamentos sempre buscou eliminar fricções.
A Alipay agora incorporou pagamentos em óculos de realidade aumentada por meio de uma parceria com a empresa chinesa Rokid. Depois de vincular suas contas Alipay ao aplicativo da Rokid, os usuários podem escanear o QR do comerciante e confirmar a compra usando verificação por voz. A Alipay afirma que o processo leva poucos segundos, em comparação aos 20 a 30 segundos dos pagamentos via celular.
Enquanto isso, a Tencent está indo além ao eliminar totalmente os QR Codes. Sua unidade de computação em nuvem está trazendo para a Tailândia a tecnologia de pagamento por leitura da palma da mão, já amplamente usada na China.
Desafios e adoção nos mercados ocidentais do pagamento por biometria
Esses dois exemplos estão sendo aplicados na Ásia, mas como ocorre com muitas tecnologias futuristas, os mercados ocidentais frequentemente enfrentam barreiras para replicar o mesmo sucesso junto aos consumidores, especialmente em pagamentos biométricos.
Neville Pattinson, CEO da PSI Consulting, disse ao Payment Expert que desafios de segurança e regulamentação desempenham um papel importante. Ele explicou que sistemas de pagamento por biometria exigem políticas de privacidade robustas para cumprir exigências legais rigorosas em algumas regiões, incluindo proibições ou restrições ao seu uso.

“A política de privacidade desses sistemas deve considerar os requisitos legislativos rigorosos de alguns Estados e garantir alta segurança ao sistema biométrico, protegendo-o contra ataques cibernéticos. O compartilhamento de dados biométricos também se torna polêmico fora de um sistema fechado”, disse ele.
No entanto, há alguns casos de uso surgindo no Ocidente. Pattinson destacou que várias empresas já testaram e lançaram pagamentos biométricos.
“Um exemplo atual é o Whole Foods (Amazon One) nos EUA, que opera um dispositivo de pagamento biométrico por palma da mão, onde as contas Amazon dos usuários estão vinculadas aos seus dados biométricos para descontos no caixa e pagamentos. Os consumidores estão aderindo, embora alguns ainda se mostrem cautelosos quanto ao cadastramento. O bom é que o sistema é optativo, e há boas políticas para cancelar a participação”, comentou.
Embora ferramentas biométricas, como leitura da palma da mão e autenticação por voz, estejam avançando em direção a experiências de pagamento mais fáceis, elas não são as únicas inovações que visam simplificar transações. Dispositivos vestíveis, como anéis inteligentes, pingentes e até chips nas unhas, estão sendo explorados.
Birch afirmou que essas ferramentas não são apenas funcionais, mas cada vez mais estilosas.
“Os vestíveis evoluíram. Antes eram como simples anéis, agora se tornaram itens de moda, então você tem anéis metálicos, pulseiras e pingentes que parecem joias”, disse ele.
Ele acrescentou que sua própria esposa usa um chaveiro habilitado com Curve vinculado a um cartão da John Lewis, uma solução simples e prática que atende às necessidades dela. Mas o apelo vai além da aparência. Alguns chips são tão pequenos que podem ser implantados nas unhas, um uso que Birch disse já ter sido adotado na Suíça e no Brasil.
“Você vai sair de férias, faz as unhas, implanta o chip em uma delas, carrega seu cartão nele e, quando estiver na praia, não precisa levar nada com você”, explicou.
Contudo, como Pattinson observou, a abordagem mais cautelosa no Ocidente significa que implantes como esses ainda não são amplamente aceitos.
Pattinson também observou que os pagamentos por vestíveis atraem consumidores que preferem um cartão “top of wallet”, ou seja, de uso mais frequente, que pode ser facilmente apresentado por um dispositivo.
“Esses consumidores são menos propensos a carregar cartões físicos e aceitam a conveniência do dispositivo. Às vezes, também é um símbolo de status ou um acessório de moda”, explicou.
Portanto, a moda parece ser o principal impulsionador da adoção desses tipos de pagamento.
Liderando essa tendência estão marcas de tecnologia e luxo como Meta, Prada e Oakley, que estão criando óculos inteligentes com pagamentos integrados, mostrando como as pessoas buscam soluções que se encaixem naturalmente em seu estilo de vida e estilo pessoal.
Equilibrando inovação com confiança
A biometria costuma ser confundida com a ideia de identidade, mas esse não é seu uso mais eficaz. Como Birch explicou, a biometria funciona melhor quando confirma algo que você já sabe. Em outras palavras, seu verdadeiro valor está na autenticação, não na identificação.
Essa diferença importa. Identificação significa descobrir quem é alguém, muitas vezes a partir de um grupo desconhecido, por exemplo, câmeras escaneando rostos em um estádio para identificar uma pessoa específica.
Autenticação é muito mais simples: trata-se de confirmar que alguém é quem diz ser. É nesse ponto que a biometria é mais eficaz. Seja ao desbloquear um celular com o rosto ou aprovar um pagamento com a digital, esses sistemas funcionam porque estão verificando um usuário conhecido.
A Trustly está se movendo nessa direção com o lançamento do Trustly ID, em abril, uma ferramenta de autenticação biométrica projetada para estabelecer um novo padrão nas experiências de login. Em fase piloto na Finlândia, ela visa acelerar o acesso ao lembrar detalhes verificados de clientes para usos futuros.
Dados biométricos são poderosos quando combinados com hardware seguro, criptografia e consentimento do usuário. Não se trata apenas de reconhecer um rosto ou dedo, mas de fazer isso com segurança, dentro de um sistema em que o usuário confia.
“Pessoalmente, acho que a maioria das pessoas preferiria ter algo sobre o qual têm controle”, disse Birch. Esse “algo” pode ser um cartão inteligente, um anel, uma pulseira, um celular ou até uma unha. O princípio é manter as credenciais locais e sob o controle do usuário.
A tecnologia para identificar pessoas sem que elas saibam já existe. Birch deu o exemplo de uma câmera com IA na entrada de uma sala de imprensa que poderia reconhecer instantaneamente todos ali. Mas a verdadeira questão não é se podemos fazer isso. É se devemos.
Um futuro onde você entra em uma loja, pega o que quiser e sai sem precisar pagar na hora pode parecer impressionante, mas a confiança ainda importa. Confiança se constrói com transparência, consentimento e sistemas sob controle do usuário, e não com vigilância silenciosa.












