O ano era 2006, quando Allie Evangelista aceitou uma proposta que mudaria sua vida. Natural de Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, a brasileira que sonhava em viajar pelo mundo não imaginava que, anos mais tarde, se tornaria a presidente do Hard Rock Hotel & Casino Bristol, do Hard Rock International, um dos principais grupos de entretenimento, hotelaria e jogos do mundo.
Localizado na Virgínia, nos Estados Unidos, o empreendimento abriga o primeiro cassino a operar no estado. A trajetória de Evangelista, no entanto, começou muito antes de sua chegada à liderança do Hard Rock Hotel & Casino Bristol.

Primeiro passo rumo à carreira internacional
Evangelista cursou Turismo na Universidade de Caxias do Sul (UCS), no campus de Canela. Antes de iniciar a faculdade, fez um intercâmbio na Inglaterra, onde aprendeu inglês e teve contato com uma realidade diferente da que conhecia. Foi durante essa experiência que percebeu o tamanho do mundo e despertou o desejo de viajar e conhecer novos lugares.
No último ano da graduação, teve a oportunidade de passar uma temporada na Disney, nos Estados Unidos. Durante uma aula prática sobre cuidados e manejo de animais no Disney’s Animal Kingdom, conheceu Fabio Evangelista, que hoje é seu marido.
Ao retornar ao Brasil e encerrar os estudos, arrumou as malas novamente. Era o momento de reencontrar seu namorado e dar início à trajetória profissional internacional.
Seu primeiro emprego no território estadunidense foi como camareira em um hotel em Orlando. Evangelista era responsável pela limpeza e organização dos quartos e recebia seu salário em dólares por hora trabalhada. Para ela, cada pagamento representava uma conquista, enquanto os planos para o futuro ainda estavam longe da indústria de jogos em que hoje atua.
A experiência no hotel marcou o início de sua trajetória de crescimento profissional. Evangelista passou por diferentes funções, desde a inspeção dos quartos até o atendimento no café da manhã, antes de ser promovida à recepção. As oportunidades surgiram à medida que ela ampliava sua rede de contatos e se conectava com diferentes pessoas. Depois, tornou-se supervisora, posição em que aprendeu muito. A executiva contou que gostou de cada uma das funções que ocupou ao longo de sua carreira.
Oportunidade na indústria de jogos: como tudo começou
Em 2006, Evangelista foi contatada por seu antigo chefe, o ex-gerente do hotel onde teve seu primeiro trabalho nos Estados Unidos como camareira. Na época, a indústria de cassinos estava ganhando espaço e se expandia na região, e ele já atuava no setor.
O receio diante da proposta tentadora fez com que seu instinto falasse mais alto: “era muito bom para ser verdade”. Ela recusou, mas o ex-chefe não se conformou e voltou a entrar em contato. Aquele foi o primeiro “sim” de muitos que a levariam para onde está hoje: à presidência do Hard Rock Hotel & Casino Bristol.
Ela deixou o cargo de diretora de Recreação em um resort de timeshare, em Orlando. A nova oportunidade profissional estava no Missouri. Mais uma vez, Evangelista fez as malas, agora ao lado de seu companheiro.
O início da carreira de Allie Evangelista no Hard Rock
Em janeiro de 2022, Evangelista deu início à sua carreira no Hard Rock Hotel & Casino Bristol. Em sua trajetória, já havia passado por outros cargos executivos em empresas como Penn National Gaming e Pinnacle Entertainment.
A construção do cassino em Virgínia ainda estava em andamento. O estabelecimento foi inaugurado mais de dois anos depois, em 14 de novembro de 2024. Evangelista afirmou estar feliz com a vida que construiu na região nessa nova fase e, especialmente, por não precisar se mudar a todo momento.
Segundo ela, as áreas verdes e as paisagens do Tennessee, estado vizinho à Virgínia, além das quatro estações do ano bem definidas, remetem, em muitos momentos, à sua cidade natal, no Rio Grande do Sul, proporcionando uma “sensação de estar em casa”.
Quando questionada sobre o que mais contribuiu para sua chegada à presidência do Hard Rock Hotel & Casino Bristol, Evangelista listou três fatores principais: o apoio do marido, o networking construído ao longo da carreira e sua afinidade com pessoas e com a liderança de equipes.
Segundo Evangelista, o apoio do marido foi decisivo para que ela pudesse aceitar diferentes oportunidades profissionais ao longo dos anos. Em alguns momentos, as escolhas exigiram que ambos priorizassem a carreira e fizessem mudanças juntos.
“Foi um investimento familiar na minha carreira. Se ele não tivesse dito sim para cada oportunidade, eu também não teria dito sim, porque sempre foi uma decisão conjunta”, contou a executiva.
No âmbito profissional, ela atribuiu parte de seu crescimento ao networking construído ao longo da carreira e às pessoas que reconheceram seu potencial antes mesmo que ela própria percebesse algumas de suas habilidades, como a capacidade de liderar equipes. Hoje, procura retribuir esse apoio ao identificar profissionais que demonstram dedicação, ética de trabalho e comprometimento, investindo tempo e criando oportunidades para eles.
A relação com as pessoas também aparece como uma característica importante de sua forma de liderar. Evangelista afirmou que gosta de trabalhar com pessoas e procura manter essa proximidade mesmo diante da posição que ocupa. Para ela, o cargo não deve criar distância entre a liderança e os funcionários.
A decisão mais difícil como líder
Para Evangelista, uma das decisões mais difíceis de sua trajetória foi deixar a empresa em que trabalhava para assumir o cargo de presidente no Hard Rock Hotel & Casino Bristol.
Antes do Hard Rock, a executiva passou por três empresas do setor de cassinos, que estavam relacionadas entre si, e nunca havia pedido demissão. Por isso, a mudança representou um desafio ainda maior.
“Eu fiquei muito nervosa porque tinha 17 anos de história em uma empresa e, de repente, ia fazer uma coisa completamente diferente. Eu queria ter certeza de que não ia falhar”, contou Evangelista.
Apesar da insegurança naquele momento, ela afirmou: “Foi absolutamente a coisa certa a fazer. Eu amo a decisão que tomei”.
Como líder, a executiva contou que nunca é fácil demitir profissionais qualificados que não atenderam às expectativas da empresa: “Você precisa tomar a decisão certa para o negócio, mas isso não torna a decisão mais fácil para você como pessoa”.
Conquistas e aprendizados
Todas as suas conquistas são motivos de orgulho. No entanto, Evangelista relembrou o momento em que promoveu pela primeira vez um funcionário para o cargo de diretor: “Eu me lembro do quão feliz fiquei naquele dia. Foi como se eu tivesse sido promovida”.
Ela também ressaltou que é possível aprender tanto com os bons exemplos quanto com as atitudes que não devem ser repetidas. A partir de experiências em que percebeu que alguns superiores dificultavam seu crescimento profissional por interesses próprios, Evangelista afirmou ter aprendido “como eu quero ser e como eu não quero ser” como líder. Essa percepção a levou a buscar formas de ajudar outras pessoas a crescer, sem ser uma barreira para o desenvolvimento de suas carreiras.
Trajetória que inspira
A trajetória de Evangelista também influencia a forma como ela enxerga sua posição de liderança. A experiência no início da carreira é, para ela, uma forma de manter a proximidade com os funcionários e mostrar que diferentes caminhos podem levar a posições de liderança.
“Eu acho que as pessoas pensam: ‘Ah, executivo’. Para mim, eu não tenho essa percepção. Tanto é que eu gosto da história de como eu comecei, porque acho que é muito mais fácil se relacionar com os funcionários. Se eu consigo vir de outro país, falar outra língua, não ter o direito de trabalhar neste país, lutar por tudo isso e construir uma carreira, sempre penso que você também pode. A ideia é ser inspiradora e mostrar: ‘Se eu posso fazer isso, então você também pode’”, disse Evangelista.
Durante a conversa, ela afirmou que, além de seu ex-chefe, outras duas ou três pessoas também desempenharam papel fundamental em sua trajetória profissional.
A executiva relembrou o momento em que decidiu dar uma chance à indústria de jogos: a mudança para Missouri significava deixar a família para trás mais uma vez — primeiro, a própria família, quando decidiu ir aos Estados Unidos; depois, a do marido — e apostar em uma carreira sobre a qual ainda sabia pouco. A decisão, no entanto, mudaria sua vida e abriria caminho para a trajetória que construiu desde então.
Evangelista afirmou: “Se eu não tivesse feito isso, não teria a vida que tenho hoje. Eu acho que a vida sempre é boa, porque a gente constrói o que quer, mas essa oportunidade que eu tive só foi possível porque dei aquele primeiro passo”.
Ao olhar para o caminho que percorreu, a gaúcha reconheceu que chegar à presidência do Hard Rock Hotel & Casino Bristol não foi fácil, mas afirmou que passaria por tudo novamente se fosse preciso. Ao lado do marido, enfrentou mudanças frequentes por muitos anos para acompanhar as oportunidades profissionais. Nesse processo, relatou a sensação de não criar raízes e a falta de uma rede de apoio formada por amigos e familiares, sobretudo nos momentos difíceis e nas situações do dia a dia em que é natural buscar alguém de confiança.
Ainda assim, destacou que a coragem de dizer sim a novas oportunidades foi fundamental para construir sua trajetória. Para Evangelista, tomar a decisão de partir e recomeçar não fica mais fácil com o tempo; apenas se torna diferente.
Equilíbrio entre vida pessoal e profissional

A rotina nos cassinos é intensa. Os estabelecimentos funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana e, ao escolher essa carreira, Evangelista reconheceu que foi preciso abrir mão de alguns momentos da vida pessoal.
Seu marido, Fabio Evangelista, inicialmente não entendia por que ela precisava trabalhar em datas comemorativas, como Páscoa e Natal. Com o tempo, porém, o casal se adaptou à rotina e passou a entender que, nessa indústria, os momentos de descanso nem sempre coincidem com os fins de semana ou feriados. Para ela, hoje, a folga pode acontecer na segunda ou na terça-feira, em vez de no sábado ou no domingo.
Evangelista é apaixonada pelo que faz e por estar constantemente cercada por pessoas, entre profissionais e clientes do cassino, que podem chegar a 10 mil em um único dia. No entanto, nos períodos de descanso, afirmou que prefere passar o tempo em casa.
Nos dias de folga, a executiva procura não sair e aproveitar a tranquilidade do seu “me time”, como ela mesma definiu. Durante as férias, ela gosta de viajar para conhecer novos lugares e culturas.
Como a sua rotina é, em grande parte, dedicada ao trabalho, Evangelista disse que acorda às 5h e vai dormir às 22h todos os dias. Para manter o foco e a produtividade, gosta de treinar pela manhã, período em que se sente mais ativa, focada e disposta. É também nesse momento que organiza mentalmente os compromissos do dia.
Antes de chegar ao trabalho, a executiva já leu relatórios e e-mails, pois, como explicou, “o mundo não para porque eu fui dormir”. Os documentos reúnem informações sobre o que aconteceu no cassino durante a madrugada, incluindo as operações dos restaurantes e do hotel. Dessa forma, ela chega ao escritório já a par dos principais assuntos e mais preparada para lidar com as demandas, evitando surpresas ao longo do dia.
Principais habilidades para alcançar cargos executivos
Do seu ponto de vista, o mais importante para chegar a um cargo executivo é manter a vontade de continuar crescendo profissionalmente. Mais do que buscar uma promoção, é preciso aproveitar oportunidades que tragam novos desafios e contribuam para o desenvolvimento de novas habilidades. Para ela, alcançar uma posição de liderança é consequência dos esforços e do desenvolvimento construídos ao longo da carreira.
A executiva também reforçou a importância de dizer “sim” a novos desafios, mesmo quando o profissional não se sente totalmente preparado. Nesse processo, contar com pessoas mais experientes pode fazer a diferença. Para isso, é importante reconhecer os próprios pontos de melhoria e não ter receio de fazer perguntas.
Oportunidades de carreira no exterior para brasileiros
A experiência de Evangelista com profissionais brasileiros nos Estados Unidos foi maior durante sua passagem pela indústria hoteleira. Nos cassinos, a presença de brasileiros entre os profissionais ainda é pequena.
De modo geral, a executiva percebeu nos imigrantes uma postura de maior dedicação ao trabalho. Segundo Evangelista, muitos chegam aos Estados Unidos motivados a construir uma nova vida e, por isso, demonstram disposição para assumir diferentes funções, desenvolver novas habilidades e aproveitar as oportunidades que surgem. Ela também observou que esses profissionais tendem a valorizar as empresas que lhes dão espaço para crescer, o que contribui para a construção de relações de lealdade.
Sem considerar questões de visto e autorização para trabalhar em outros países, Evangelista afirmou que acredita que há muitas oportunidades para brasileiros que desejam construir uma carreira internacional. Na sua avaliação, profissionais interessados em crescer no exterior podem se destacar pela dedicação e pela vontade de avançar na carreira.
Ela também destacou que essa característica pode ser especialmente valorizada em mercados como os Estados Unidos e a Europa, onde percebe que as gerações atuais têm priorizado cada vez mais o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Para Evangelista, brasileiros dispostos a assumir novos desafios podem encontrar espaço para desenvolver suas carreiras fora do país.
Um conselho para Allie do Rio Grande do Sul
Se pudesse dar um conselho para si mesma no início da carreira, Evangelista diria para ter mais paciência e confiar no processo. A executiva contou que, apesar de ter construído uma trajetória profissional rápida, também passou por períodos em que sentia estar pronta para novos desafios, mas as oportunidades não surgiam.
“Eu acho que eu gostaria de dizer: aproveite um pouco mais, aproveite o processo. Vai ficar tudo bem. Nem tudo acontece da noite para o dia”, afirmou Evangelista.
Ela lembrou que, antes de assumir seu primeiro cargo executivo, ingressou na faculdade em um momento de frustração profissional, quando sentia que seu crescimento não estava acontecendo no ritmo que esperava. A executiva também destacou que levou quase nove anos para receber uma promoção.
A experiência fez com que Evangelista passasse a enxergar de outra forma os períodos de espera na carreira. Para ela, profissionais nem sempre precisam buscar resultados imediatos, já que também é possível aprender e se desenvolver enquanto as oportunidades não chegam.
“Se você fizer o que tem que fazer, tiver integridade e dedicação, vai acontecer. É só uma questão de tempo. Tenha paciência”, concluiu Evangelista.
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