A cantora brasileira Anitta compartilhou em seu Instagram um vídeo de Juliana Benício, engenheira, economista e pré-candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro, comentando sobre o mercado de apostas online do Brasil.
Na publicação, Benício relatou a história de uma mulher que teria se endividado e cogitado tirar a própria vida e utilizou o caso para criticar o modelo regulatório brasileiro. Ela comparou o cenário nacional a mercados como Austrália, Espanha, Holanda e Reino Unido, afirmando que o Brasil “liberou primeiro e só criou regras seis anos depois […] regras bem frouxas, do jeito que a indústria queria”.
Após divulgar o vídeo de Benício, Anitta publicou uma série de stories em seu Instagram comentando o cenário das apostas no Brasil. A artista afirmou que, no passado, já contou com o patrocínio de empresas do setor em apresentações por meio de publicidade indireta, mas que decidiu não aceitar mais esse tipo de parceria após refletir e aprofundar seus estudos sobre os impactos da atividade.
Durante seu posicionamento, Anitta comparou o atual momento do mercado brasileiro à busca por um tratamento médico: segundo ela, primeiro é necessário testar o medicamento para depois avaliar seus efeitos. Para a cantora, o país “tentou” um modelo para o setor de apostas, mas agora precisaria rever a estratégia diante das consequências observadas.
Ela também destacou os impactos econômicos e sociais relacionados às apostas online, afirmando que a atividade tem provocado prejuízos financeiros e afetado famílias brasileiras.
Na visão de Anitta, um dos principais desafios relacionados à ludopatia é a dificuldade de familiares e amigos identificarem quando o hábito de apostar passa a se tornar patológico, diferentemente do que ocorre com outras formas de dependência.
Impactos das apostas no Brasil
Anitta afirmou que as apostas online estariam “acabando com a economia do país e com a vida do pobre”. No entanto, dados do próprio governo apontam que o setor também passou a gerar impacto econômico relevante desde o avanço da regulamentação.
Em 2025, as apostas arrecadaram quase R$ 10 bilhões em impostos no Brasil. Já no primeiro trimestre de 2026, a Receita Federal registrou R$ 3,3 bilhões em arrecadação proveniente da atividade regulada. A expectativa do mercado é que o montante supere, até o fim do ano, os números registrados anteriormente.
Outro ponto levantado por Anitta é a influência na vida dos brasileiros de classe baixa. Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF) mostram que os gastos com as apostas online, atualmente, representam menos de 0,5% do consumo das famílias e 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Além disso, embora estudos indiquem maior participação da população de baixa renda entre os apostadores, dados da Pay4Fun mostram que, há cerca de um ano, 94% dos depósitos realizados na plataforma foram de até R$ 100. Outras pesquisas também apontam que o ticket médio dos apostadores brasileiros é relativamente baixo.
Hoje, com mais de 83 milhões de brasileiros em situação de inadimplência, um estudo da LCA Consultoria aponta os juros como um dos principais fatores associados ao endividamento das famílias no país, e não as apostas online, embora estas possam agravar dificuldades financeiras em contextos já fragilizados ou até mesmo contribuir para o endividamento. Ainda assim, não podem ser consideradas como o fator único ou principal desse cenário.
A indústria não busca ignorar os impactos negativos que o jogo compulsivo pode causar em determinados grupos ou indivíduos. No entanto, atribuir às apostas, de forma isolada, a responsabilidade pelo endividamento das famílias brasileiras simplifica um cenário econômico complexo, que envolve fatores como renda, acesso ao crédito, juros elevados e educação financeira.
Apostas como forma de entretenimento
A artista também afirmou que muitas pessoas deixaram de frequentar cinemas, restaurantes e outras atividades de lazer para apostar online, o que, na visão dela, estaria impactando negativamente o setor de entretenimento no Brasil.
“Tenho uma sensação de pirâmide, sabe”, declarou a cantora.
De fato, existem casos de esquemas fraudulentos associados a empresas de apostas ilegais. Promessas de ganho fácil, mensagens como “a plataforma está pagando”, “clique no link para ganhar dinheiro” ou “aposte em determinado horário para lucrar” fazem parte de estratégias frequentemente utilizadas por operações clandestinas para atrair usuários. Em muitos casos, influenciadores digitais também participam dessa divulgação – seja por desconhecimento, seja por ignorarem conscientemente as irregularidades e os riscos desse tipo de prática.

No entanto, é importante separar a atividade regulada das operações ilegais. A legislação brasileira proíbe publicidade enganosa, promessas irreais de lucro e campanhas que incentivem ganhos fáceis com apostas. No mercado regulado, operadores autorizados devem seguir regras de publicidade, políticas de jogo responsável e mecanismos de proteção ao consumidor, além de serem fiscalizados continuamente pelas autoridades.
Também é necessário considerar que o comportamento de consumo da sociedade mudou nos últimos anos. O avanço da tecnologia e da digitalização alterou a forma como as pessoas consomem entretenimento, serviços e produtos em diferentes setores da economia. Plataformas de streaming passaram a competir com cinemas, aplicativos de entrega impactaram restaurantes e o comércio eletrônico transformou o varejo tradicional, e as apostas online surgiram dentro desse mesmo contexto de transformação digital.
Além disso, dentro dos limites da lei, o cidadão possui liberdade para decidir como utilizar sua renda e quais atividades de lazer deseja consumir. Se uma pessoa prefere gastar parte do dinheiro com apostas regulamentadas em vez de ir ao cinema ou jantar fora, trata-se de uma escolha individual legítima – desde que realizada de forma consciente, responsável e dentro do ambiente regulado.
Anitta cobra maior atuação do governo
Anitta também afirmou que cabe ao governo adotar medidas mais rígidas para lidar com os impactos das apostas online. Durante os stories publicados em seu Instagram, a artista criticou a atuação do poder público e declarou que, se os governantes fossem mais eficientes, o país não enfrentaria tantos problemas sociais e econômicos.
A cantora defendeu a criação de restrições mais severas para o setor, especialmente em relação à publicidade, além da ampliação de mecanismos de atendimento e de suporte à população. De maneira indireta, Anitta sugeriu que a regulamentação atual ainda seria insuficiente para lidar com os efeitos da atividade.
“Isso deveria vir do governo, proibir vários tipos de propaganda, igual ao cigarro, que não pode um monte de coisa para não estimular as pessoas a algo que faz tão mal”, afirmou Anitta.
O tema da publicidade, inclusive, já está no centro das discussões regulatórias do setor. Desde a regulamentação das apostas no Brasil, o governo federal vem implementando regras relacionadas à comunicação publicitária, jogo responsável e proteção de públicos vulneráveis. Ainda assim, especialistas defendem que as normas continuem sendo aperfeiçoadas à medida que o mercado amadurece.
Na visão da artista, parte das pessoas que ocupam posições de poder poderia estar ligada aos recursos financeiros provenientes do setor de apostas, o que explicaria, segundo ela, a falta de movimentação mais rígida contra a atividade.
Apostas não resolvem problemas financeiros
Antes de encerrar sua manifestação, Anitta reforçou que a mensagem não tinha caráter indireto nem o objetivo de atacar pessoas específicas. A cantora afirmou que não está julgando ninguém, mas sim chamando a atenção para o que considera um problema crescente.

Ao mesmo tempo, a própria fala de Anitta apresenta contradição: enquanto afirmou que as apostas estariam prejudicando a economia do país, também disse que o crescimento do setor se deve ao fato de que ele movimenta “muito dinheiro”, o que, em sua visão, implicaria necessariamente que outras pessoas estejam perdendo nesse processo.
“Não estou aqui para atacar ninguém. Ninguém mesmo. […] E não foi indireta para ninguém. É uma mensagem que eu queria deixar aqui para que a gente tente fazer com que as coisas melhorem. Porque as coisas estão indo para o buraco por causa disso”, disse a cantora.
Na avaliação da artista, “vai todo mundo perder”, incluindo estabelecimentos de lazer e famílias de jogadores afetados. Ela também mencionou o caso de um conhecido que, segundo relatou, “acabou com tudo que tinha” em razão das apostas.
Anitta reforçou, ainda, a ideia de que as apostas não seriam a solução para problemas financeiros e afirmou que conteúdos publicados nas redes sociais que exibem ganhos como se fossem resultados imediatos ou recorrentes não correspondem à realidade.
Do ponto de vista regulatório, no entanto, operadores licenciados estão sujeitos a regras de publicidade e de jogo responsável, que proíbem a divulgação enganosa de ganhos e estabelecem sanções em caso de descumprimento. A maior preocupação, nesse contexto, recai sobre práticas de operadores ilegais, que frequentemente utilizam estratégias de marketing fora das normas vigentes.
Impactos das apostas em debate
O debate sobre os impactos sociais das apostas é legítimo e necessário. No entanto, a análise precisa considerar um aspecto fundamental: até que ponto é adequado comparar mercados consolidados com um ambiente recém-regulado e que ainda está em fase de amadurecimento? Os próprios países citados como referência por Benício passaram por longos períodos de adaptação, revisões legislativas, falhas regulatórias e pressão social antes de alcançarem modelos mais maduros de supervisão.
A Holanda, por exemplo, implementou a regulamentação do setor em 2021 e ainda passa por um processo de amadurecimento regulatório, mas o Reino Unido, a Austrália e Espanha estruturaram seus modelos entre 2005 e 2012. No Brasil, a discussão sobre a regulamentação das apostas ganhou força apenas após a expansão acelerada do setor durante a pandemia da COVID-19.
Ainda assim, em um intervalo de tempo relativamente curto, o governo federal criou regras para o funcionamento da atividade, instituiu a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) e estruturou um marco regulatório para o mercado. Evidentemente, isso não significa que o modelo esteja concluído ou que não precise de ajustes. A própria dinâmica do setor exige revisões constantes. No entanto, órgãos reguladores, operadores e especialistas de diferentes áreas ligadas à indústria vêm atuando de forma contínua para aprimorar mecanismos de fiscalização, de proteção ao consumidor e de eficiência regulatória.
Em conversa com Wanor França, membro do conselho do Kindbridge Research Institute e sócio e chefe de Crescimento e Receita Estratégica da CCT — entrevista que será publicada na próxima semana —, os mercados brasileiro e estadunidense foram comparados sob a perspectiva do combate à ludopatia. Para o especialista, o “Brasil está atrasado na execução, mas não necessariamente em intenção regulatória”.
França acrescentou: “Nos EUA, chegamos onde estamos depois de décadas de erros, pressão da sociedade civil e bilhões investidos em pesquisa. A indústria americana destina quase meio bilhão de dólares por ano em iniciativas de jogo responsável, incluindo pesquisa independente, campanhas educativas, treinamento extensivo de funcionários e financiamento de serviços para jogadores com problemas”.
Profissionais sérios do setor não apoiam a atuação ilegal da atividade, com promessas enganosas e lucros irreais. No entanto, isso não significa que operadores não autorizados deixem de atuar à margem da lei. O foco, portanto, deve estar no combate às empresas ilegais, e não no enfraquecimento do mercado regulado.
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