“IA não deve substituir os humanos”: debate sobre tecnologia e regulamentação no Payment Expert Summit

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Para garantir que o dinheiro que flui por suas contas seja limpo e legítimo, a indústria global de cassinos precisa garantir que tenha um panorama geral de seus incontáveis clientes – a Inteligência Artificial (IA) pode desempenhar um papel enorme nesse trabalho, mas isso não é uma tarefa simples.

Crucial para alcançar isso será combinar a tecnologia com funções de longa data. As operadoras de apostas também terão que garantir que a IA vá além da simples análise de transação – ela precisará também analisar o comportamento das pessoas que realizam a transação.

“Muitos processos em torno de relatórios podem ser automatizados, mas a responsabilidade sobre as decisões não pode ser do sistema”, diz Piotr Lisak, responsável pelo setor de denúncias de lavagem de dinheiro e governança da Kindred, no Payment Expert Summit, durante o painel ‘Tech & Regulation: Fostering a sustainable AML strategy’. O evento faz parte do SBC Summit 2024, realizado entre os dias 24 e 26 em Lisboa, Portugal.

Falando para uma multidão na Feira Internacional de Lisboa, Lisak defendeu que muitos reguladores e acionistas em mercados regulamentados – tanto nos setores de indústria como de jogos – estão relutantes em dar liberdade total para que inteligência artificial tome decisões de combate à lavagem de dinheiro (AML).

Isso se deve às crescentes preocupações sobre práticas de IA responsáveis. As empresas de apostas não podem simplesmente colocar a responsável exclusiva sobre as medidas de combate à lavagem de dinheiro em um sistema de IA. Como Lisak disse: “A IA é uma ferramenta de suporte à decisão que precisa ser completamente transparente”.

Concordando com Lisak, Luis Carlos Perez, diretor do setor de combate à lavagem de dinheiro da Lottofy, afirmou que a tecnologia precisa ser inteligente e preditiva para ser capaz de garantir uma análise robusta. Essa é uma área em que a empresa sediada em Malta tem experiência considerável.

Diversas empresas sediadas em Malta – lembrando que a pequena ilha do mediterrâneo hospeda diversas empresas do setor que juntas são responsáveis por 10% da sua economia – viram em primeira mão o risco da não conformidade com medidas de AML, já que o país foi colocado na lista da Força-Tarefa de Ação Financeira (FATF) de mercados com deficiência de medidas de prevenção à lavagem de dinheiro.

Alguns anos após o ocorrido, Malta conseguiu sair da lista, e empresas como a Lottofy, afirma Perez, trabalham com os “mais altos padrões internacionais”, incluindo aqueles definidos pela FATF.

Falando dessa posição de experiência, Perez acredita que a IA deve ser usada para conduzir análises comportamentais, observando fatores como quanto tempo o usuário passa dentro da plataforma de jogos.

Se as operadoras tiverem como foco apenas a análise das transações, elas não serão capazes de evitar atividades criminosas, afirma Perez. Independente disso, essas habilidades devem ser usadas para auxiliar decisões humanas, e não substituí-las.

“A IA não deve substituir os humanos”, compartilha Perez. “É uma ferramenta capaz de mudar o jogo, e é muito útil para o departamento de AML”.

A responsabilidade por medidas de prevenção de lavagem de dinheiro não recaem apenas nos ombros das operadoras, instituições financeiras e empresas de pagamento. Os reguladores, como observado acima no caso de Malta, também têm um papel fundamental, assim como os políticos.

Concentrando apenas na União Europeia (UE), o bloco comercial tem se movimentado visando coordenar as medidas de prevenção à lavagem de dinheiro. Ultimamente, foi criada uma autoridade reguladora continental. Lisak, da Kindred, acredita que apesar dos esforços a harmonização ainda está um pouco distante, pelo menos na indústria iGaming.

As operadoras estão sujeitas a diferentes regulamentações em diferentes países – algo que não ocorre nas redes bancárias da UE, sujeitas a algumas iniciativas regulatórias padronizadas. É necessário, portanto, gastar muito tempo analisando as diferenças na regulamentação e questões relacionadas ao uso de IA.

“Na União Europeia, deveríamos ter uma harmonização sobre o assunto, mas isso está longe de acontecer. O diabo está nos detalhes”, observa Lisak.

Passando para o outro lado do Atlântico, Ashley McCulloch, diretora de gestão de contas da América do Norte no Inspired Gaming Group, oferece a perspectiva dos Estados Unidos sobre o assunto. Na sua opinião, há muito que a indústria dos EUA pode aprender monitorando os desenvolvimentos do mercado europeu.

Isso se deve em grande parte ao fato de os dois compartilharem uma semelhança – tanto EUA como UE são grandes entidades políticas que abrigam várias jurisdições: estados no primeiro e países membros no segundo.

Há “muita regulamentação individual”, afirma McCulloch, acrescentando que isso “torna desafiador não apenas para a operadora, mas também para a provedora ser competitiva em cada um dos mercados”.

Ela também compartilhou sua opinião sobre Inteligência Artificial, concordando com Perez e Lisak ao dizer que a tecnologia não deve substituir os seres humanos. Isso é particularmente importante do ponto de vista de relações públicas – a indústria de jogos e apostas não deve ser vista como alguém que está cortando empregos de pessoas em favor de uma substituição tecnológica.

Por fim, a IA é algo que chama atenção dos reguladores em ambos os lados do Atlântico. A criação de Institutos de Segurança de IA nos Estados Unidos e União Europeia, o IA Act da UE e o financiamento multimilionário da tecnologia no Canadá são indicativos disso.

Indústrias interessadas – sejam elas de tecnologia, finanças, pagamentos ou iGaming – devem se envolver com as regulamentações emergentes. Na visão de McCulloch, a regulamentação ideal deve focar no uso ideal de IA: comportamento.

“Quando olhamos para as regulamentações, precisamos olhar para qual comportamento criamos, e se ele é comportamento certo”, conclui McCulloch.