A primeira-dama Rosângela Lula da Silva, conhecida popularmente como Janja, foi uma das últimas figuras públicas a aderir à campanha Block no Tigrinho, lançada pelo movimento 342 Artes na semana passada. Mas, assim como outras pessoas públicas que se posicionaram contra apostas online, Janja cometeu um equívoco claro.
A socióloga publicou um vídeo em seu perfil no Instagram, no qual reuniu alguns relatos de brasileiros afetados pelo vício em jogos e também sua opinião pessoal sobre apostas.
Para Janja, as apostas são a principal causa do endividamento da população brasileira, mesmo com dados do Ministério da Fazenda indicando que mais da metade dos brasileiros gastam até R$ 50 por mês com apostas.
“Você sabe qual é o maior motivo disso [endividamento]? As apostas online, as bets, o Tigrinho, esses cassinos na palma da mão que prometem dinheiro fácil e entregam dívidas, perda de renda e até vidas”, disse Janja.

“Esse ciclo vicioso afeta não só quem aposta, mas toda a família. E sabe quem mais carrega esse peso? Nós mulheres. São mães, esposas, e filhas que precisam reorganizar as contas do seu lar, lidar com o endividamento e enfrentar os impactos emocionais do vício em apostas na sua família.”
Ao terminar, Janja fez um aceno à sua base política, dizendo que os governos anteriores — Michel Temer e Jair Bolsonaro —autorizaram a “jogatina no país” sem se preocupar com seus impactos, e que coube a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) regulamentar o setor. O vídeo de Janja segue, inclusive, a estratégia de comunicação definida pelo PT para a eleição de outubro.
A primeira-dama também lembrou da existência do sistema centralizado de autoexclusão dos sites de apostas, no qual qualquer cidadão pode bloquear o acesso às casas de apostas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF), e do Novo Desenrola Brasil.
O Desenrola não só permite que brasileiros renegociem suas dívidas, como também bloqueia o acesso a casas de apostas autorizadas por 12 meses.
Opinião do SBC Notícias Brasil
O debate público sobre as apostas no Brasil precisa separar dois momentos distintos do setor: o ambiente anterior à regulamentação e o mercado regulado que está oficialmente em vigor desde o início de 2025.
As críticas feitas às casas de apostas que atuavam em um cenário ainda pouco estruturado são legítimas e ajudam a explicar parte da resistência de artistas, influenciadores e figuras públicas ao segmento. No entanto, repetir essa leitura sem considerar as mudanças regulatórias, os mecanismos de controle, a arrecadação destinada às políticas públicas e as exigências de jogo responsável é, no mínimo, leviano.
O mercado regulado de apostas não está isento de críticas, mas precisa ser analisado com base em dados. Pessoas públicas têm todo o direito de se posicionar contra ou a favor das apostas, mas esse debate ganha qualidade quando parte de um ponto de vista neutro e distingue operadores legalizados daqueles que atuam à margem da regulação.
Então, embora a atitude de Janja e de todas as outras pessoas públicas que aderiram ao Block no Tigrinho seja bem-intencionada, elas parecem não estar totalmente a par do assunto. O Brasil precisa, acima de tudo, manter a regulação e intensificar o combate ao mercado ilegal de apostas, pois este não recolhe impostos, serve de apoio para organizações criminosas e não segue nenhuma das diretrizes de jogo responsável.
Leia também o conteúdo educativo que fizemos sobre o jogo Fortune Tiger, conhecido no Brasil como Jogo do Tigrinho. Você pode acessar a matéria aqui.
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