SBC Summit 2026: Andrea Carvalho, Entain, explica benefícios de uma carteira de identidade digital para o mercado regulado

Carteira de identidade digital.
Crédito: Shutterstock

À frente das áreas de assuntos jurídicos, compliance e prevenção à lavagem de dinheiro da Entain, Andrea Carvalho acompanha de perto os desafios regulatórios decorrentes da digitalização dos processos de identificação de clientes.

No SBC Summit 2026, Carvalho será uma das participantes do painel EUDI Wallets & Digital Identity: A New Era for KYC — or Just New Complexity? (Carteiras EUDI e Identidade Digital: Uma Nova Era para o KYC — ou Apenas Nova Complexidade?), ao lado de Yainnis Stavroulas, CTO da Novibet, e de Jean-Michel Azzorpadi, arquiteto de Blockchain.

Foto de Andrea Carvalho, diretora jurídica da Entain.
Crédito: Andrea Carvalho

O painel será moderado por Jochen Biewer, Managing Director da Chevron Group, e discutirá se as carteiras de identidade digital podem efetivamente simplificar os processos de KYC ou apenas transferir sua complexidade para outras etapas da operação.

Em entrevista ao SBC Notícias Brasil, Carvalho disse que os benefícios desse modelo podem ir além do mercado europeu. Embora sua atuação esteja concentrada em Portugal e no ambiente regulatório da Europa, a executiva observou que o Brasil já avançou significativamente em identidade digital e autenticação e apontou a verificação baseada em atributos como um caminho que poderia ser explorado no país.

Na prática, isso permitiria, por exemplo, confirmar que um apostador tem mais de 18 anos sem que o operador precisasse receber e armazenar todos os dados presentes em um documento de identidade. Para Carvalho, porém, identidades digitais mais confiáveis não eliminam outras obrigações, como monitoramento contínuo, avaliação de risco e controles contra crimes financeiros, que continuarão sendo indispensáveis.

SBC Notícias Brasil: Na sua avaliação, a EUDI Wallet realmente simplificará o KYC para os operadores de apostas ou existe o risco de ela apenas transferir a complexidade para outras etapas?

Andrea Carvalho: A EUDI Wallet tem potencial para simplificar significativamente a verificação da identidade dos clientes, que é um dos principais componentes do KYC. Ao permitir que os clientes compartilhem de forma segura credenciais digitais confiáveis emitidas por autoridades públicas, os operadores poderão verificar identidades de maneira mais rápida, mais precisa e com maior grau de confiança.

No entanto, o KYC vai muito além da verificação de identidade. Operadores regulados ainda precisam avaliar o risco dos clientes, cumprir obrigações de prevenção à lavagem de dinheiro, realizar diligência reforçada quando apropriado e monitorar continuamente a atividade do cliente durante todo o relacionamento comercial.

Se implementada com sucesso, um dos possíveis benefícios é que as equipes de compliance poderão dedicar menos tempo à validação de documentos.

SBC Notícias Brasil: Um dos princípios da EUDI Wallet é a divulgação seletiva de dados. Como isso pode ser conciliado com exigências mais amplas de KYC, PLD e jogo responsável?

Andrea Carvalho: Do ponto de vista de compliance, considero que esses objetivos são, em grande medida, complementares, e não conflitantes.

Um dos maiores pontos fortes da EUDI Wallet é permitir que as pessoas comprovem atributos específicos, como ter mais de 18 anos, sem precisar divulgar desnecessariamente todas as suas informações pessoais. Isso está totalmente alinhado ao princípio europeu de minimização de dados.

Ao mesmo tempo, os operadores continuam responsáveis pelo cumprimento das exigências relacionadas a PLD, KYC e jogo responsável. Quando a legislação exigir informações adicionais, os operadores ainda precisarão obtê-las e verificá-las.

Um bom processo de compliance nunca foi sobre coletar a maior quantidade possível de dados. Trata-se de obter as informações corretas para a finalidade regulatória adequada e no momento certo. A divulgação seletiva contribui para esse objetivo e, ao mesmo tempo, fortalece tanto a privacidade quanto a confiança.

SBC Notícias Brasil: Diferentes formas de implementação em cada país podem recriar a fragmentação que a EUDI Wallet pretende solucionar?

Andrea Carvalho: Esse é provavelmente um dos desafios mais importantes da implementação.

A ambição por trás da EUDI Wallet é criar uma estrutura de identidade digital confiável e interoperável em toda a Europa. No entanto, diferenças nos cronogramas de implementação, no nível de maturidade tecnológica ou nos padrões técnicos entre os Estados-membros ainda podem gerar complexidade operacional para empresas que atuam internacionalmente.

Dito isso, considero a direção geral muito positiva. Mesmo que a implementação não seja perfeitamente harmonizada desde o primeiro dia, estabelecer princípios europeus comuns já representa um avanço significativo em relação ao cenário fragmentado atual.

No fim das contas, a interoperabilidade e uma implementação consistente serão fundamentais para que a iniciativa alcance todo o seu potencial.

Andrea Carvalho da Entain palestra no SBC Summit 2025.
Foto tirada de Andrea Carvalho durante painel no SBC Summit 2025. Crédito: SBC

SBC Notícias Brasil: Como os operadores podem evitar perder os benefícios de um onboarding instantâneo devido a verificações adicionais de risco financeiro e solicitações de documentos?

Andrea Carvalho: A jornada do cliente deve ser vista como dinâmica, e não como um processo em que todas as verificações ficam concentradas no início.

A verificação de identidade pode tornar-se praticamente instantânea, mas outras obrigações de compliance surgem naturalmente em diferentes etapas, dependendo do perfil de risco e do comportamento do cliente.

A abordagem mais eficaz é adotar uma jornada verdadeiramente baseada em risco. Uma abordagem baseada em risco continua sendo essencial. Os clientes devem ser submetidos ao nível adequado de escrutínio de acordo com seu perfil de risco, enquanto a tecnologia pode ajudar a tornar esse processo o mais eficiente possível.

A tecnologia pode reduzir significativamente os atritos, mas a proporcionalidade continua sendo fundamental. O objetivo é proteger os consumidores e, ao mesmo tempo, garantir que clientes legítimos tenham uma experiência de onboarding eficiente e confiável.

SBC Notícias Brasil: Quais elementos da EUDI Wallet poderiam ser úteis para o mercado brasileiro?

Andrea Carvalho: Embora minhas responsabilidades no dia a dia estejam concentradas em Portugal e no marco regulatório europeu, na minha avaliação existem diversos conceitos por trás da EUDI Wallet que poderiam ser úteis em qualquer mercado regulado.

O mais significativo é a possibilidade de verificar atributos confiáveis em vez de depender exclusivamente de cópias de documentos de identidade. Essa abordagem pode fortalecer a verificação de identidade, ao mesmo tempo em que reduz o compartilhamento desnecessário de dados e melhora a experiência do cliente. Um processo de verificação de identidade confiável e eficiente também pode contribuir para a proteção e o direcionamento de clientes, tornando a jornada regulamentada mais fluida, ao mesmo tempo em que mantém os controles de conformidade adequados.

O Brasil já fez avanços significativos em identidade digital e autenticação. À medida que o marco regulatório continuar evoluindo, credenciais digitais confiáveis e verificações baseadas em atributos são conceitos que podem valer a pena explorar à medida que o mercado se desenvolve.

Em vez de simplesmente replicar o modelo europeu, cada jurisdição deve partir de suas próprias bases jurídicas e tecnológicas, adotando os princípios que melhor contribuam para segurança, privacidade e confiança.

SBC Notícias Brasil: A infraestrutura de identidade digital do Brasil poderia evoluir para permitir que empresas reguladas verifiquem atributos específicos dos usuários sem receber todos os seus dados pessoais?

Andrea Carvalho: Conceitualmente, é uma direção interessante que muitos mercados regulados estão começando a explorar.

A verificação baseada em atributos dá às pessoas maior controle sobre suas informações pessoais, ao mesmo tempo em que permite que empresas reguladas recebam exatamente as informações necessárias para cumprir determinada obrigação legal.

Por exemplo, confirmar que um cliente tem mais de 18 anos ou que sua identidade já foi verificada por uma autoridade confiável pode, muitas vezes, ser mais útil do que solicitar e armazenar um documento de identidade completo, que contém informações irrelevantes para aquela finalidade específica.

Qualquer desenvolvimento futuro, naturalmente, exigiria um marco jurídico adequado, uma governança sólida e padrões robustos de segurança. Do ponto de vista tanto de compliance quanto de privacidade, porém, trata-se de uma direção muito promissora.

SBC Notícias Brasil: Carteiras digitais confiáveis podem reduzir significativamente as fraudes ou o monitoramento contínuo continuará sendo necessário?

Andrea Carvalho: Identidades digitais confiáveis podem contribuir significativamente para reduzir fraudes envolvendo documentos falsificados, identidades roubadas e fragilidades nos processos de verificação manual. Elas oferecem um ponto de partida muito mais sólido para estabelecer confiança na identidade de um cliente. No entanto, a verificação de identidade é apenas o primeiro passo.

Os crimes financeiros continuam evoluindo rapidamente, especialmente por meio de identidades sintéticas, fraudes documentais e técnicas criminosas cada vez mais sofisticadas.

Por esse motivo, o monitoramento contínuo continuará indispensável. Um processo de compliance eficaz combina identidade digital confiável com monitoramento de transações, análise comportamental, detecção de fraudes e avaliação contínua de risco ao longo de todo o relacionamento com o cliente.

Uma carteira digital confiável deve, portanto, ser vista como uma camada adicional e poderosa de proteção, e não como uma solução isolada para combater crimes financeiros.


A entrevista com Andrea Carvalho, Head de Legal, Compliance, and AML Affairs na Entain, faz parte de uma série de conversas que o SBC Notícias Brasil está realizando com palestrantes confirmados do SBC Summit 2026. Confira também:

Fellipe Fraga, Stellar Gaming, antecipa debates sobre inteligência artificial no iGaming.

Dario Evangelista, Betsson, explica como operadores podem proteger funcionários dos riscos do jogo.

William Bonalume, Open Gaming, analisa integração tecnológica no setor de apostas.

Vanessa Arteaga, Aposta Ganha, explica como transformar dados em campanhas eficientes.

Floris Assies, Better World Casinos, antecipa debates do SBC Summit 2026 e defende jogo responsável integrado ao produto.

Khalid Ali, IBIA, analisa avanços e desafios do Brasil no combate à manipulação de resultados.


Os ingressos para o SBC Summit 2026 estão disponíveis aqui


Receba um resumo com as principais notícias sobre o mercado de jogos online e de apostas esportivas no Brasil através do link. A newsletter é enviada toda segunda, terça e quinta-feira, sempre às 17 horas.