A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) comentaram os dados divulgados pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras) sobre o aumento do consumo de alimentos após a proibição das apostas online no Brasil por meio da Medida Provisória (MP) nº 1.394/2026.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) reduziu entre 16 de setembro e 14 de outubro, passando de 0,7% para 0,38%.
Outro ponto destacado pela entidade foi o período em que o setor varejista de alimentos decidiu se manifestar: na semana anterior à realização da audiência pública pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para debater a MP e o futuro das apostas no Brasil.
Em comunicado oficial, a ANJL pontuou: “Segundo o IPCA-15, embora o grupo de alimentos e bebidas tenha registrado avanço de 0,88%, os preços de diversos itens, inclusive os que compõem a cesta básica, recuaram no período, que abrange tanto os últimos dias da vigência do mercado de apostas quanto as duas primeiras semanas após o seu término”.
Além disso, conforme destacou a associação, o aumento no consumo de alimentos básicos também pode estar relacionado ao reajuste de 15% do Bolsa Família, anunciado em setembro e com vigência a partir de outubro.
Para a ANJL, tanto os registros oficiais quanto fatores macroeconômicos “desmontam a narrativa criada esta semana” pela Abras.

“Mais uma vez, um setor que sempre se opôs à indústria de apostas lança ilações à sociedade brasileira sobre os impactos das apostas. Esquece ou ignora, de forma proposital, que atualmente milhões de apostadores continuam jogando, mas nos mais de 30 mil sites ilegais disponíveis e acessíveis no Brasil”, comentou Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL.
O presidente também afirmou que, diante dessas informações, a associação entre o fim das apostas legalizadas e o aumento do consumo de determinados alimentos “não faz sentido”.
“A propagação de informações falsas, sem comprovação em dados concretos, parece mais uma tentativa de mobilizar a opinião pública para um lado. Não sabemos com quais intenções isso é feito. Os mais prejudicados não são as empresas, mas os apostadores brasileiros, que, sem o mercado legalizado, continuarão à mercê dos sites ilegais”, disse Lemos Jorge.
IBJR também questiona estudo da Abras

O IBJR também questionou a relação de causa e efeito entre a proibição das apostas e o aumento das compras de alimentos. O instituto afirmou que os dados da Abras “não comprovam que a proibição das apostas tenha provocado o aumento das compras de alimentos”. Além disso, destacou que os próprios levantamentos da associação de supermercados já indicavam crescimento do varejo alimentar antes da restrição às apostas reguladas no país.
“No monitoramento semanal ABRAS/NIQ, as vendas nominais avançaram 7,9% entre 14 e 20 de setembro, antes da medida provisória, e 7,4% entre 5 e 11 de outubro, na comparação com as mesmas semanas de 2025. […] Na análise sobre agosto, a própria ABRAS relacionou o aumento do consumo à melhora do emprego e da renda e à redução dos preços dos alimentos, com alta real de 2,71% nos lares no ano”, destacou o IBJR em comunicado oficial.
O instituto mencionou, ainda, que a queda nas transações via Pix não garante que os recursos foram para os supermercados e nem revela o valor deixado de ser apostado pelas famílias.
O instituto também questionou a possibilidade de associar a redução das transações via Pix ao aumento das vendas nos supermercados. Segundo o IBJR, os dados não permitem identificar o destino dos valores movimentados nem determinar se houve redução efetiva dos gastos das famílias com apostas, já que parte dos recursos pode continuar sendo destinada a plataformas clandestinas.
“É necessário esclarecer a base técnica de números que circulam no debate, como os R$ 143 bilhões que as bets teriam retirado do comércio e os R$ 62,5 bilhões da renda das famílias. Segundo o Ministério da Fazenda, o mercado regulado registrou cerca de R$ 37 bilhões em GGR em 2025. O GGR é o total apostado menos os prêmios pagos, ou seja, o gasto líquido dos apostadores nas empresas autorizadas. No mesmo ano, o consumo das famílias foi de cerca de R$ 8,1 trilhões, segundo o IBGE. O GGR equivale, assim, a cerca de 0,46% desse consumo”, explicou o IBJR.
Abras relaciona fim das apostas ao crescimento das vendas
O estudo divulgado pela Abras apontou que a proibição das apostas online no Brasil contribuiu para o aumento do consumo em supermercados. Segundo a entidade, as vendas de alimentos essenciais cresceram 6,5% após a suspensão da atuação de operadores licenciados, com avanço nas compras em supermercados, atacarejos e mercearias. A associação também relacionou a expansão do consumo à redução das movimentações bancárias destinadas às apostas.
No entanto, o levantamento foi questionado pela ANJL e pelo IBJR, que apontaram outros fatores econômicos capazes de influenciar o comportamento de consumo e contestaram a existência da relação direta entre a proibição das apostas e o aumento das vendas no varejo alimentar.
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