Espaço Jurídico, Andrei Kampff: o poder da FIFA exige novos controles

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Andrei Kampff, jornalista, advogado, mestre em direito desportivo e sócio do AK Direito na Comunicação e no Esporte, estreia na coluna Espaço Jurídico, do SBC Notícias Brasil, com uma análise dos desafios de governança enfrentados pela FIFA.

No artigo “O poder da FIFA exige novos controles”, Kampff discutiu a concentração de poder na entidade e os limites dos atuais mecanismos de fiscalização após a tentativa de Gianni Infantino de vender ações da Copa do Mundo a investidores privados, entre outras polêmicas.


O poder da FIFA exige novos controles

Crédito: Andrei Kampff

A FIFA nunca teve tanto poder. E talvez nunca tenha ficado tão evidente que os mecanismos criados para controlar esse poder já não são suficientes. Essa é, para mim, a questão central da crise que atravessa a maior entidade esportiva do mundo. Os episódios recentes podem parecer independentes quando observados isoladamente, mas estão ligados a uma forma de governança que não cabe mais no tamanho da entidade. 

A crise provocada pelo FIFA Forward Enterprise, os problemas envolvendo direitos humanos durante a Copa do Mundo de 2026, a aproximação cada vez mais explícita entre o presidente Gianni Infantino e o poder político e os questionamentos sobre a independência e a eficácia das estruturas internas de controle possuem origens diferentes. Mas todos apontam para o mesmo lugar.

Existe hoje uma enorme distância entre o poder exercido pela FIFA e os mecanismos existentes para fiscalizá-lo.

Há algum tempo trabalho com compliance, governança e direitos humanos no esporte. Tenho conversado muito também com colegas de fora do Brasil, profissionais responsáveis por programas de integridade em grandes empresas e pessoas que trabalham em organizações esportivas internacionais. Participo de encontros e debates sobre o tema. E uma percepção aparece com cada vez mais frequência nessas conversas: o esporte cresceu economicamente, ampliou sua influência política, tornou suas decisões globais, mas suas estruturas de governança não evoluíram na mesma velocidade.

No caso da FIFA, essa contradição tornou-se particularmente evidente.

Não estamos falando apenas da entidade que organiza a Copa do Mundo. Estamos falando de uma organização privada que movimenta bilhões de dólares, distribui recursos para 211 associações nacionais, controla competições globais, estabelece regras que afetam clubes, atletas, intermediários e investidores, decide onde serão realizados eventos capazes de transformar cidades e economias e exerce uma espécie de poder normativo transnacional.

Pouquíssimas organizações privadas no mundo possuem tamanho alcance.

E é justamente por isso que não podemos continuar discutindo a governança da FIFA como discutíamos décadas atrás.

A crise que revelou o problema

Foto tirada de Gianni Infantino, presidente da FIFA.
Gianni Infantino, presidente da FIFA. Crédito: Shutterstock

O FIFA Forward Enterprise talvez tenha sido a demonstração mais evidente dessa fragilidade. 

O projeto pretendia promover uma profunda reorganização da exploração comercial dos ativos da FIFA, criando uma estrutura empresarial capaz de receber investimento privado e administrar parte relevante das receitas relacionadas às competições da entidade.

Independentemente da avaliação econômica sobre a proposta, havia uma pergunta anterior.

Quem decidiu?

E, principalmente, como decidiu?

Quando uma organização associativa pretende promover uma transformação dessa dimensão, não basta discutir se existe autorização estatutária para fazê-lo. É preciso saber como a proposta foi construída, quais informações foram disponibilizadas às associações, quais conflitos de interesse foram identificados, quais mecanismos independentes avaliaram a operação e qual espaço efetivo foi concedido aos integrantes da organização para participar da decisão.

Governança não é cumprir uma votação ao final do processo. Governança é garantir transparência, participação e fiscalização desde o início.

A forte reação de federações, confederações, ligas e de representantes de outros setores do futebol obrigou a FIFA a retirar o projeto. Mas seria um erro interpretar o recuo como o encerramento da crise.

O projeto acabou. O problema institucional que permitiu que ele chegasse tão longe permanece.

E esse talvez seja o aspecto mais importante de toda essa discussão.

Autonomia não significa ausência de controle

Durante muito tempo, o esporte construiu sua organização internacional em torno do conceito de autonomia.

Essa autonomia possui uma razão histórica importante. O esporte precisa ter liberdade para estabelecer suas regras, organizar competições e proteger suas instituições contra interferências políticas indevidas.

Mas existe uma diferença enorme entre autonomia e ausência de controle.

A FIFA exerce um poder extraordinário justamente porque recebe legitimidade das associações que a compõem. É uma estrutura associativa. Sua autoridade nasce de baixo para cima.

Quando decisões estratégicas passam a ser excessivamente concentradas no topo, ocorre uma ruptura entre o poder exercido e a base que deveria legitimá-lo.

Essa tensão se torna ainda maior quando percebemos quantas funções diferentes estão reunidas dentro da mesma organização.

A FIFA regula o futebol. Organiza competições. Explora comercialmente essas competições. Distribui recursos. Fiscaliza associações. Aplica sanções. Define políticas de desenvolvimento. Negocia com governos. Escolhe países-sede.

É regulador, organizador, agente econômico e distribuidor de recursos ao mesmo tempo.

Esse acúmulo deveria produzir controles extraordinários.

Não concentração extraordinária.

Uma das reformas que precisam ser discutidas passa justamente pela separação mais clara entre funções regulatórias, comerciais e de desenvolvimento. A lógica é conhecida em qualquer sistema minimamente sofisticado de governança: quem cria a regra não deveria concentrar também, sem contrapesos efetivos, a exploração econômica, a fiscalização e a distribuição dos recursos decorrentes daquele mesmo sistema.

A Copa mostrou que o problema vai além do dinheiro

Fachada da sede da FIFA em Zurique, Suécia.
Fachada da sede da FIFA em Zurique. Crédito: Shutterstock

A Copa do Mundo de 2026 ampliou essa discussão.

Pela primeira vez, uma Copa foi organizada desde sua candidatura sob uma estrutura formal mais robusta de compromissos relacionados aos direitos humanos. Isso deveria representar um avanço histórico.

Em muitos aspectos, representou.

Mas os acontecimentos ao redor do torneio também demonstraram a distância que ainda existe entre os compromissos institucionais assumidos pela FIFA e a capacidade de fazer com que eles prevaleçam quando entram em choque com interesses econômicos ou políticos.

As dificuldades enfrentadas por determinados participantes em razão de políticas migratórias, os debates envolvendo discriminação, as restrições relacionadas a países participantes e diferentes episódios de interferência política mostraram que direitos humanos não podem existir apenas como compromissos escritos em políticas institucionais.

Eles precisam possuir mecanismos de enforcement. Ou seja, de mecanismos que forcem a conformidade. 

Esse é um problema de compliance.

Uma política que não consegue produzir consequências quando é violada deixa de ser um instrumento de governança e corre o risco de se transformar apenas em instrumento reputacional.

É por isso que venho defendendo, há algum tempo, a criação, dentro da estrutura internacional do futebol, de um mecanismo independente de direitos humanos, formado por especialistas com autonomia suficiente para avaliar situações envolvendo competições, países-sede e decisões institucionais.

Direitos humanos não podem depender exclusivamente da conveniência política da administração que estiver no comando da FIFA.

Precisam ser institucionalizados da mesma forma que os Comitês de Ética precisam ser independentes e formados por pessoas capacitadas. 

O problema da proximidade com o poder político

Gianni Infantino, presidente da FIFA, posa para foto ao lado de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.
Infantino se aproximou de Trump nos últimos anos. Crédito: Shutterstock

Há ainda outro elemento que não pode ser ignorado.

A proximidade entre Gianni Infantino e lideranças políticas durante a Copa colocou a FIFA diante de uma contradição difícil de explicar.

A entidade exige das federações nacionais independência em relação aos governos. Seus estatutos e regulamentos combatem interferências políticas. Federações podem sofrer consequências graves quando o poder estatal ultrapassa determinados limites.

Essa proteção faz sentido. Mas a credibilidade dessa regra também depende da conduta de quem está no topo.

Uma organização que exige independência política de seus integrantes precisa demonstrar independência política em sua própria atuação.

Quando essa fronteira se torna confusa, o problema não é apenas de imagem. É de governança.

As regras precisam valer para todos, inclusive para quem exerce o maior poder dentro da estrutura.

Compliance precisa controlar o poder

Existe um erro recorrente na maneira como o esporte compreende compliance.

Durante anos, muitas organizações trataram compliance como um departamento. Criaram códigos de ética, canais de denúncia, políticas internas e estruturas formais destinadas a demonstrar compromisso com a integridade.

Tudo isso é importante. Mas compliance não é uma coleção de documentos. É um sistema de controle do poder.

Um programa de integridade eficiente precisa ser capaz de fazer perguntas incômodas antes que as decisões sejam tomadas.

Quem pode decidir? Existe conflito de interesses? A informação chegou a todos os que deveriam participar da decisão? Há mecanismos independentes de fiscalização? Quem controla quem exerce o poder? Existe possibilidade real de responsabilização?

Se essas perguntas só aparecem depois da crise, o sistema falhou.

O Fifagate deveria ter deixado essa lição definitivamente incorporada à estrutura do futebol internacional.

O escândalo iniciado em 2015 produziu uma transformação profunda na percepção sobre governança esportiva. Reformas foram realizadas, mecanismos de integridade foram fortalecidos e a própria FIFA passou a defender publicamente uma nova cultura institucional.

Mais de uma década depois, entretanto, a discussão voltou ao mesmo ponto fundamental:

Quem controla o poder?

É preciso reformar a arquitetura

A resposta para a crise atual não pode ser apenas trocar pessoas.

O problema é institucional.

Reduzir tudo à permanência ou não de Gianni Infantino seria simplificar uma discussão muito maior. Presidentes passam. Estruturas permanecem.

A FIFA precisa aproveitar essa crise para reformar sua arquitetura de governança.

Isso passa pela redução da concentração de poderes na presidência; pela separação mais clara entre as funções comerciais, regulatórias e de desenvolvimento; pelo fortalecimento efetivo dos órgãos independentes de ética e compliance; pela criação de mecanismos externos de supervisão; por regras mais rigorosas de transparência; pela revisão dos sistemas de distribuição de recursos; e por uma participação mais democrática dos diferentes atores que formam o futebol.

Atletas, clubes, ligas e outros stakeholders não podem continuar aparecendo apenas depois que as grandes decisões estão praticamente tomadas.

A fiscalização externa também precisa ser encarada não como ameaça à autonomia esportiva, mas como elemento de legitimidade.

Organizações que administram bilhões de dólares e exercem poder global não podem esperar que o mundo simplesmente confie nelas.

Precisam demonstrar por que merecem confiança.

A legitimidade não vem do dinheiro

Fãs assistem Copa do Mundo de 2026 em um telão.
Fãs se reúnem para assistir a Copa do Mundo em um telão. Crédito: Shutterstock

O futebol vive talvez o período de maior expansão econômica de sua história.

Novas competições, novos mercados, fundos de investimento, plataformas digitais e receitas comerciais ampliaram extraordinariamente a capacidade financeira das organizações esportivas.

Mas existe algo que dinheiro não compra. Legitimidade.

Ela depende de confiança.

E confiança institucional é construída por meio de transparência, participação, controle e capacidade de responsabilização.

A crise atual da FIFA oferece, portanto, uma oportunidade.

Não apenas para abandonar um projeto comercial contestado ou administrar mais uma turbulência política, mas para reconhecer que a arquitetura institucional criada para governar o futebol já não corresponde ao tamanho do poder que hoje está concentrado em Zurique.

O esporte internacional mudou.

O mercado mudou.

A sociedade mudou.

A fiscalização mudou.

A governança precisa mudar também.

Porque quanto maior o poder de uma organização, menos esse poder pode depender apenas da confiança em quem momentaneamente o exerce.

Precisa depender das instituições capazes de controlá-lo.


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