Pix é disponibilizado nos EUA em meio a sanções de Trump e pode ser opção para apostas on-line

Em meio às sanções de Trump, Pix é disponibilizado nos EUA no setor de varejo e pode ser opção para mercado de apostas online
Crédito editorial: Joshua Sukoff / Shutterstock.com

O sistema de pagamentos Pix, criado pelo Banco Central do Brasil, será disponibilizado nos Estados Unidos por meio de uma parceria entre a PagBrasil e a Verifone, permitindo que turistas brasileiros façam pagamentos em reais diretamente em estabelecimentos norte-americanos, com foco inicial em destinos populares como Nova York e Flórida.

O lançamento foi impulsionado pelo aumento de mais de 17% no número de turistas brasileiros nos EUA entre 2023 e 2024, que ultrapassou 1,9 milhão de visitantes, segundo dados da PagBrasil.

A consolidação do Pix como alternativa ao uso de cartões e sua crescente influência global chamou a atenção do governo norte-americano. No dia 15 de julho, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu uma investigação formal sobre as práticas digitais do Brasil, citando o Pix como uma possível barreira ao comércio para empresas americanas.

De acordo com o embaixador Jamieson Greer, “esta é uma investigação, a pedido do presidente Trump, sobre os ataques do Brasil a empresas americanas de redes sociais, além de outras práticas comerciais desleais”. A principal preocupação gira em torno da soberania digital e de possíveis riscos à privacidade e à segurança de dados.

Foto: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS/AFP – 16/07/2025.

Apesar das tensões comerciais, especialistas como Leonardo Baptista, CEO e cofundador da Pay4Fun, enxergam no Pix uma referência internacional e que pode ser aderida por outros sistemas de pagamentos para além do varejo: “O Pix mostrou que é viável criar uma infraestrutura de pagamentos instantâneos, gratuita e acessível para toda a população”, comentou o executivo.

“O que diferencia o modelo brasileiro é o papel do Banco Central, que atua como regulador e também como operador do sistema. Nos EUA e na União Europeia, há uma tendência a modelos mais descentralizados, mas já existem iniciativas em andamento, como o FedNow, nos Estados Unidos, e o projeto de euro digital na Europa. A expectativa é que surjam soluções híbridas, e o Pix tem servido como referência internacional”, continuou.

Com mais de 168 milhões de usuários e mais de 6 bilhões de transações processadas apenas em março de 2025, o Pix passou a expandir para outros países próximos. Por exemplo, em cidades como Buenos Aires, na Argentina, o Pix é aderido por varejistas para atrair brasileiros. Para além disso, plataformas como Mercado Pago também aderiram a pagamentos internacionais entre Argentina e Brasil.

“Isso não apenas expande o alcance global do Pix, mas oferece aos lojistas americanos uma nova forma de capturar os gastos de milhões de turistas brasileiros. É uma vitória para o comércio local e para os viajantes”, celebrou Ralf Germer, CEO da PagBrasil.

Pix pode ser usado no setor de apostas on-line no mundo todo?

Leonardo Baptista, Pay4Fun.

Com a expansão turística, é natural que seja levantado o questionamento sobre a usabilidade do Pix no mercado de apostas e jogos on-line. O modelo adotado no Brasil tem sido elogiado por sua eficiência, inclusão financeira e estabilidade, mas também tem gerado questionamentos no cenário internacional. Leonardo Baptista discorreu com exclusividade para o SBC Notícias Brasil sobre a possibilidade do uso do Pix no mercado de apostas e jogos on-line internacional.

Para o CEO, “o modelo brasileiro não reduz a concorrência, ele nivela o campo de atuação. Isso não bloqueia a inovação; ao contrário, abre espaço para que mais empresas criem soluções dentro de uma base sólida e inclusiva. (…) Do ponto de vista técnico, o Pix é extremamente moderno e eficiente”.

Dentre os desafios para levar o Pix a um patamar internacional, “seria necessário criar acordos multilaterais e integrar o sistema aos bancos e instituições locais. Mas o tema já está em debate em fóruns como o G20, que discute a interoperabilidade entre sistemas de pagamentos. Para o setor de iGaming, que demanda velocidade, rastreabilidade e eficiência, o Pix seria uma solução ideal – especialmente em mercados regulados”.

Além disso, outra barreira a ser ultrapassada é o lado político de cada país, já que todos têm “regras próprias para o sistema financeiro, e adotar uma ferramenta como o Pix exigiria integração entre diferentes legislações e estruturas bancárias. Isso não impede que o modelo sirva de inspiração para novas soluções locais ou que se caminhe, no futuro, para sistemas interoperáveis entre nações”.

Um dos principais atrativos do sistema é a transparência. Baptista argumentou: “O Pix tem rastreabilidade em tempo real, o que facilita o controle das operações e o combate à lavagem de dinheiro. Como não depende de intermediários, é possível saber exatamente de onde vem e para onde vai o dinheiro. Isso nem sempre acontece com métodos como cartões pré-pagos, vouchers ou criptomoedas”.

Alckmin reforça defesa do Pix gratuito em reunião com big techs sobre tarifas dos EUA

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), se reuniu no último dia 21 com representantes das big techs Apple, Visa, Meta, Google e Expedia, que integram o grupo de diálogo com o governo brasileiro sobre as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos a produtos nacionais.

O encontro faz parte das ações do comitê interministerial criado para formular a resposta oficial do Brasil à medida anunciada pelo presidente norte-americano Donald Trump. Durante a reunião, o vice-presidente, que também comanda o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, afirmou que as empresas demonstraram apoio à ampliação de sistemas de pagamento instantâneo e inclusivo, como o Pix.

“Eles falaram em defender o ‘Pix para todos’, e o mais importante é que continue sendo gratuito”, afirmou Alckmin, destacando que a inovação não deve vir acompanhada de novas barreiras ao consumidor.

Além de discutir a taxação, Alckmin ressaltou o papel estratégico do Brasil no ecossistema das big techs: “As empresas reconheceram a relevância do mercado brasileiro para suas operações e demonstraram interesse em ampliar sua presença no país”, afirmou.

Segundo ele, as companhias ficaram de encaminhar, nos próximos dias, sugestões e demandas específicas ao governo federal. “Abrimos um canal de diálogo produtivo, que pode render avanços importantes nos próximos meses”, concluiu.