O mercado ilegal de apostas ainda alcança metade dos apostadores brasileiros, apesar de apresentar uma trajetória de queda em relação a levantamentos anteriores. A conclusão é de uma pesquisa do Instituto Locomotiva a pedido do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), realizada em maio de 2026 para dimensionar a incidência de apostas irregulares no país.
O levantamento “Dimensionando a Incidência de Apostas Ilegais no Brasil” ouviu 2.291 pessoas que haviam feito apostas esportivas ou jogado em cassinos online nos três meses anteriores à pesquisa. As entrevistas foram realizadas de forma digital, com abrangência nacional e margem de erro de 2,1 pontos percentuais. Os dados foram ponderados por gênero, idade, renda familiar e escolaridade por região.
Para identificar os participantes do mercado ilegal, o Instituto Locomotiva adotou como critério o relato de duas ou mais práticas irregulares: apostar em sites que não exigiram reconhecimento facial, acessar plataformas sem o domínio “bet.br”, depositar com cartão de crédito ou criptomoedas.
Com base nessa metodologia, 50% dos entrevistados foram classificados como apostadores ilegais. O resultado representa uma redução em comparação aos 62% registrados no primeiro semestre de 2025 e aos 55% da segunda metade do ano passado.
Ao apresentar suas conclusões, o Instituto Locomotiva afirma que, mesmo com a “ligeira tendência de queda”, as apostas ilegais continuam alcançando metade do público apostador brasileiro e que o progresso registrado até agora ainda é insuficiente.
Paralelamente a essa pesquisa do Instituto Locomotiva, o IBJR também divulgou nesta terça-feira, 11, o estudo “Fora do Radar 2.0 – Dimensionamento e combate do mercado ilegal de apostas no Brasil”, elaborado pela LCA Consultores.
77% dos apostadores relatam ao menos uma prática irregular, segundo Instituto Locomotiva

Quando o critério é ampliado para quem reconheceu pelo menos uma das práticas avaliadas, o percentual sobe para 77% dos apostadores.
A irregularidade mais frequente foi apostar em uma plataforma que não exigiu reconhecimento facial, situação relatada por 53% dos participantes. Outros 48% disseram ter apostado em sites cujo endereço terminava de forma diferente de “bet.br”, solução criada pelo governo para facilitar a identificação de casas de apostas autorizadas.
Em relação aos meios de pagamento, 37% afirmaram ter realizado depósitos em plataformas de apostas online utilizando cartão de crédito, enquanto 23% relataram o uso de criptomoedas.
O estudo também identificou que a incidência das apostas ilegais é maior entre os mais jovens. Entre os entrevistados de 18 a 29 anos, 54% foram classificados no grupo, contra 51% entre aqueles de 30 a 49 anos e 43% entre pessoas com 50 anos ou mais.
As diferenças são menores nos recortes por gênero e renda. O percentual é de 51% entre mulheres e 49% entre homens. Por faixa de renda, chega a 51% entre quem recebe até dois salários mínimos, 49% entre dois e seis salários mínimos e 48% entre entrevistados com renda superior a seis salários mínimos.
Na avaliação do Instituto Locomotiva, os resultados indicam que o problema do mercado ilegal afeta de forma mais intensa os jovens e que medidas de combate à oferta não autorizada tendem, portanto, a ter impacto especialmente relevante nesse público.
Plataformas irregulares concentram apostas dos usuários
A pesquisa também mediu a importância das plataformas nas quais os entrevistados haviam identificado práticas informais.
Entre os apostadores considerados ilegais pelo estudo, 51% afirmaram que esses sites são as únicas plataformas nas quais apostam. Outros 36% disseram concentrar nelas a maior parte de suas apostas, embora também utilizem outras empresas. Apenas 8% responderam que esses sites representam aproximadamente metade de sua atividade, enquanto 6% concentram neles a menor parcela das apostas.
Os números indicam que, para uma parcela significativa dos usuários expostos às práticas irregulares, a utilização dessas plataformas não é apenas ocasional, mas representa parte central de sua atividade de apostas.
Maioria dos apostadores reconhece riscos das plataformas ilegais
A exposição ao mercado não autorizado ocorre apesar de a maior parte dos apostadores reconhecer os riscos associados às plataformas ilegais.
Ao todo, 77% concordam totalmente ou parcialmente que sites ilegais são mais perigosos para os consumidores por não cumprirem regras e normas destinadas à promoção do jogo responsável. Desse total, 55% concordam totalmente com a afirmação e 22%, parcialmente.
A percepção dos riscos aumenta conforme a idade e a renda. A concordância é de 69% entre apostadores de 18 a 29 anos, mas chega a 81% nas duas faixas acima de 30 anos. Entre pessoas com renda superior a seis salários mínimos, o percentual alcança 86%.
A pesquisa encontrou resultado semelhante ao perguntar sobre a atuação das autoridades. 77% concordam que combater as plataformas ilegais deveria ser uma prioridade para evitar problemas relacionados ao vício em apostas. A defesa dessa prioridade alcança 82% entre mulheres e 73% entre homens.
Mesmo entre os participantes classificados pelo estudo como apostadores ilegais, 74% concordam com a necessidade de priorizar o enfrentamento ao mercado não autorizado.
63% dos apostadores acreditam que governo poderia fazer mais

O levantamento também avaliou a percepção dos apostadores sobre o combate conduzido pelo poder público.
Para 37% dos entrevistados, o Governo Federal já faz tudo o que está ao seu alcance para proteger os apostadores de sites e aplicativos ilegais. Outros 39% consideram que parte das medidas necessárias está sendo adotada, mas que ainda há espaço para avançar, enquanto 24% avaliam que o governo não faz quase nada para enfrentar essas plataformas.
Somadas as duas últimas respostas, 63% entendem que o governo poderia fazer mais contra o mercado ilegal. Até mesmo entre os apostadores classificados como ilegais, essa percepção é majoritária, com 58%.
A pesquisa, no entanto, foi conduzida antes do governo estruturar o combate ao mercado ilegal de apostas, algo muito cobrado pelo setor regulado. Desde junho, o governo passou a realizar grandes operações policiais contra supostos operadores ilegais, além de implementar mecanismos de asfixia financeira.
O Instituto Locomotiva aponta que existe forte apoio dos apostadores brasileiros a medidas mais rígidas contra as plataformas ilegais de apostas, inclusive entre usuários dessas plataformas.
Para o instituto, os dados mostram tanto a permanência de uma presença relevante do mercado não autorizado quanto uma demanda dos próprios apostadores por maior fiscalização e combate à ilegalidade.
Veja também a pesquisa A Voz do Mercado, feita pelo SBC Insights, com executivos do setor regulado de apostas brasileiro. Você pode baixar a pesquisa aqui.
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