A nova campanha eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), intitulada “O Brasil contra as bets”, foi ao ar no YouTube e tem como foco único as apostas online. Em um vídeo de pouco mais de cinco minutos, Lula aparece conversando com pessoas que relatam problemas associados ao jogo.
Temas como o endividamento e o suicídio foram os principais abordados. A falsa promessa de ganho por influenciadores digitais também foi apontada como impulsionadora da ludopatia.
“Tem gente gastando o que não pode gastar. Ninguém pode gastar o leite da família jogando. Então, nós vamos jogar muito duro para que a gente possa fazer com que mais dinheiro sobre para que você possa cuidar da sua família”, afirmou Lula.
Como parte da nova campanha, Lula afirmou novamente que pretende acabar com apostas online. No entanto, ele não explicou quais medidas pretende adotar para garantir a segurança dos apostadores após o fim do mercado regulado.
No vídeo, o ex-presidente Michel Temer foi apontado como responsável pela legalização das apostas no Brasil. Já a responsabilidade pelos danos atribuídos ao setor foi direcionada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que, durante seu mandato, não fiscalizou nem regulamentou a atividade.
“Foi o Temer que liberou as bets no Brasil, mas foi no governo Bolsonaro que elas viraram um monstro. Bolsonaro não taxou, não regulou e não fiscalizou as bets. Foram quatro anos sem lei, com as famílias brasileiras cada vez mais endividadas”, destacou a campanha.
Para Lula, a dependência causada pelas apostas é “mais grave do que qualquer outra droga”, uma vez que a medicina atual não está preparada para lidar com casos de ludopatia. O presidente também mencionou que o Sistema Único de Saúde (SUS) irá implementar programas especializados no tratamento de problemas relacionados ao jogo.
A campanha destacou as medidas tomadas pelo governo Lula para garantir a segurança dos brasileiros. Entre elas, estão a retirada de mais de 66 mil sites ilegais do ar, a proibição do acesso às apostas por mais de 2,8 bilhões de beneficiários do Bolsa Família e do Novo Desenrola Brasil, além da criação da ferramenta de autoexclusão unificada.
A ação contou com o apoio do rapper Emicida, que comentou sobre os possíveis impactos do fim do mercado regulado de apostas no futebol. Segundo o artista, o dinheiro direcionado ao esporte é proveniente do bolso de cada brasileiro, e não dos operadores. Ele sugeriu que esse dinheiro chegue aos times locais de outra forma, “sem passar por bet e sem prejudicar a vida de ninguém”, como era feito antigamente.

No fim do vídeo, aparece um recorte de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e candidato à Presidência em 2026, falando sobre a possibilidade de instalar hotéis-cassinos no Brasil.
“Será que Flávio Bolsonaro está do lado da sua família?”, questionou a campanha de Lula.
Análise: narrativa de Lula x realidade do mercado de apostas
A narrativa de Lula sobre as apostas apresenta pontos controversos. Mesmo após o próprio presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, apontar a expansão do crédito como um dos fatores associados ao endividamento, as apostas continuam sendo relacionadas ao cenário histórico de inadimplência no país, que atingiu quase 84 milhões de brasileiros em agosto, segundo dados da Serasa.
Além disso, ao atribuir a Jair Bolsonaro a responsabilidade pelos danos associados às apostas, sob o argumento de que não houve fiscalização nem regulamentação após a legalização da atividade em 2018, Lula comprova uma questão central: a importância de um mercado regulado para a fiscalização e o enfrentamento dos problemas associados às apostas.
Outro ponto a destacar diz respeito às medidas adotadas pelo governo Lula para minimizar os impactos negativos das apostas na sociedade, como o sistema centralizado de autoexclusão e o bloqueio de sites ilegais. Diante de eventual extinção do mercado regulado, ficam duas questões essenciais: como o governo pretende fiscalizar uma atividade que, nesse cenário, seria majoritariamente clandestina? E de que forma garantiria a efetividade da autoexclusão, considerando que a ferramenta atualmente se aplica apenas às plataformas licenciadas?
A campanha também apresentou relatos sobre as falsas promessas de ganhos feitas por influenciadores digitais, prática que ganhou visibilidade no período anterior à regulamentação do setor. Atualmente, sob a legislação vigente e a fiscalização dos órgãos competentes, os operadores autorizados estão sujeitos a regras de publicidade que vedam, entre outras práticas, a promoção de apostas como meio de obter ganhos garantidos. O contraste entre os dois cenários, portanto, também merece ser considerado no debate.
Um novo estudo da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) apontou que, caso os cassinos online sejam proibidos no Brasil, a participação do mercado ilegal poderá crescer de 41% para até 82%. Nesse cenário, o público brasileiro, inclusive os grupos mais vulneráveis, ficaria mais exposto a plataformas que não seguem as normas do mercado regulado, ampliando os riscos e reduzindo os mecanismos de proteção disponíveis aos apostadores.
O debate, portanto, não deveria se limitar à existência das apostas, mas também considerar como a atividade é conduzida, fiscalizada e compreendida pela população. A falta de educação financeira e de informação sobre o funcionamento do setor, somada à necessidade de ampliar a assistência pública às pessoas que enfrentam problemas relacionados ao jogo, são questões que também merecem espaço nessa discussão. Afinal, restringir a atividade, por si só, não responde a todos os desafios envolvidos na proteção dos apostadores.
Nosso site-irmão SBC Noticias agora tem um canal no YouTube e um podcast semanal em espanhol. Clique aqui para acessar o canal deles.
Receba um resumo com as principais notícias sobre o mercado de jogos online e de apostas esportivas no Brasil através do link. A newsletter é enviada toda segunda, terça e quinta-feira, sempre às 17 horas.












