UNIP nega bolsa do Prouni a estudante após considerar que apostas feitas pela mãe são fonte de renda

Foto de fachada de uma unidade da UNIP.
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Eduardo Luvizetto dos Santos, natural de Campinas e com renda mensal de até 1 salário mínimo, teve a bolsa do Programa Universidade para Todos (Prouni) negada após a Universidade Paulista (UNIP) observar que a mãe dele movimentava dinheiro em casas de apostas online.

A instituição teria considerado a entrada dos valores provenientes das apostas online como renda, alegando que o candidato não teria direito a cursar Psicologia porque a renda familiar ultrapassa o teto de 1,5 salário mínimo por pessoa estabelecido para o programa. 

A bolsa integral que recebeu devido à sua nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi negada pela UNIP, que também rejeitou recurso administrativo do candidato. Segundo a apuração do G1, a universidade alegou que os prêmios foram reconhecidos como fonte de renda. 

O veículo da Globo entrou em contato com o Ministério da Educação para esclarecer a situação. No entanto, até a publicação da matéria, em 6 de agosto, o órgão não havia retornado. O G1 também teve acesso ao extrato bancário apontado pela UNIP como fator desclassificante, confirmando a movimentação financeira entre plataformas de apostas online. 

Além disso, Santos teria argumentado com a universidade ao afirmar que sua mãe está em situação de endividamento e que as apostas não são fonte de renda ou salário. O estudante continua recorrendo a medidas jurídicas na tentativa de reverter a decisão.

O G1 reforçou que a maioria dos registros é referente a pagamentos. O filho acredita que a mãe pode estar enfrentando um caso de ludopatia

Advogados diferenciam renda e movimentação financeira

Paulo Bandeira, advogado especializado em direito educacional e membro consultor da Comissão da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados do Paraná (OAB/PR), reforçou que a entrada e saída de dinheiro decorrentes das apostas não representam acréscimo patrimonial e os valores não devem ser classificados como renda tributável. 

Para ele, a movimentação de dinheiro nas contas bancárias, incluindo empréstimos, transferências e repasses, não representa necessariamente uma alteração na capacidade financeira das famílias. Em relação às apostas, Bandeira afirmou que é preciso diferenciar o volume total movimentado do lucro obtido. Segundo ele, depósitos recorrentes podem elevar as quantias registradas no extrato, mas o resultado final ainda pode ser nulo ou negativo.

José Roberto Covac Junior, advogado especialista em direito educacional e mestre em direito tributário pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), acrescentou: “Em tese, o saldo positivo obtido com apostas pode ser considerado renda, já que os prêmios líquidos são tributados pelo Imposto de Renda. O que precisa ser apurado é se houve efetivamente acréscimo patrimonial”.

Em e-mail enviado ao estudante, a UNIP informou que a análise dos documentos é realizada no período das entrevistas do programa. Com o fechamento do sistema, não é possível a reabertura da avaliação. 

No entanto, como a decisão partiu da universidade, Bandeira explicou que é possível tentar reverter o caso. Segundo ele, quando o estudante consegue comprovar que a negativa decorreu de uma interpretação equivocada das movimentações bancárias, sem acréscimo patrimonial real, os tribunais têm anulado a decisão e garantido a bolsa aos estudantes.

Nota oficial da UNIP

Placa da UNIP.
Crédito: Shutterstock

O G1 também compartilhou a nota oficial da UNIP em relação à situação de Eduardo Santos. Confira a seguir:

“O candidato em questão entregou a documentação para concorrer à bolsa do ProUni, no entanto, há uma grande entrada de valores, de forma constante, vinculadas a jogos virtuais de apostas.

Prêmios são considerados renda, de acordo com a lei que rege o imposto de renda, sendo isentos de declaração ganhos até R$ 28.467,20 por ano.

Ele afirma que a mãe tem ludopatia, o vício em jogos, mas essa informação não é agravante ou determinante para aprovação no processo.

O candidato alega valores descontados da renda de sua mãe, como empréstimos feitos em folha para pagar por esses jogos, mas o Programa não considera despesas do grupo familiar, apenas a renda bruta familiar/per capita mensal, caso contrário teriam-se como bolsistas os mais endividados, e não o grupo com menor renda.

Vale ressaltar que as entradas de empréstimo não são recorrentes e não foram consideradas como renda”.

Opinião do SBC Notícias Brasil

O caso chama a atenção por uma possível incoerência na interpretação das movimentações financeiras relacionadas às apostas online. Desde a regulamentação do setor, operadores licenciados e o próprio marco regulatório reforçam que as apostas não devem ser apresentadas como forma de obter renda, salário ou enriquecimento. Pelo contrário, a comunicação das empresas é obrigada a destacar o caráter recreativo da atividade e a desencorajar a ideia de ganhos garantidos.

É estranho que movimentações em plataformas de apostas possam ser utilizadas como indicativo de renda familiar para fins de concessão de uma bolsa destinada a estudantes de baixa renda. Se a atividade não pode ser divulgada como fonte de renda, parece contraditório tratá-la como tal na análise socioeconômica de um candidato, especialmente sem a comprovação de acréscimo patrimonial efetivo.

O caso levanta dúvidas sobre quais parâmetros devem prevalecer na avaliação da condição socioeconômica de um estudante e até que ponto determinadas movimentações financeiras refletem, de fato, sua realidade econômica.

Se o entendimento passar a ser o de que ganhos com apostas caracterizam renda para esse tipo de análise, seria necessário estabelecer critérios objetivos sobre quando isso ocorre. Do contrário, abre-se espaço para interpretações distintas e decisões potencialmente incompatíveis com a própria lógica da regulamentação do setor.

Mais do que um caso individual, a situação evidencia a necessidade de critérios claros para a avaliação da renda familiar. A discussão não se limita às apostas, mas à forma como movimentações financeiras são interpretadas na concessão de benefícios sociais e educacionais, evitando que decisões administrativas acabem produzindo resultados inconsistentes.


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