Hospital de Clínicas da Unicamp amplia acolhimento para pessoas com transtorno do jogo

Um médico segurando a mão de um paciente
Crédito: Shutterstock

O Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) informou que abriu espaço para acolher pessoas com transtorno do jogo no Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa) do setor de Psiquiatria. O atendimento é oferecido todas as quartas-feiras, das 8h às 11h30, sem a necessidade de agendar previamente. 

Segundo Renata Azevedo, psiquiatra responsável pelo Aspa, casos de endividamento relacionados às apostas se tornaram mais frequentes entre os pacientes que já enfrentavam problemas associados ao álcool, ao tabaco ou a outras drogas ilícitas. 

A profissional explicou a necessidade da criação do espaço voltado à ludopatia: “Pelo fato do ambulatório ser porta aberta, começaram também a aparecer casos novos de pessoas só com dependências comportamentais, nas quais se enquadram os jogos e apostas eletrônicas. Vimos que havia a necessidade de se criar um atendimento específico para esse grupo de pessoas”.

O psicólogo Maurício Sant’ana, do programa de treinamento em serviço do Aspa, acrescentou que, geralmente, os pacientes se sentem envergonhados e passam por um processo de negação antes de admitir a dependência em apostas. 

“O hábito de jogar é potente. Ele vem, muitas vezes, associado a quadros de ansiedade, depressão e solidão. O jogo promove uma falsa ideia de companhia e de participação”, afirmou Sant´ana.

São Paulo está entre os estados com maior número de pessoas que apostam e que enfrentam problemas financeiros, informou o psiquiatra Felipe Santaella. O especialista afirmou que os usuários buscam recuperar o valor perdido com mais apostas, entrando em um padrão de repetição. 

Especialistas do Hospital das Clínicas da UNICAMP.
Maurício Sant’ana, Renata Azevedo e Felipe Santaella. Crédito: Hospital de Clínicas da Unicamp.

“Tem paciente que está devendo para o banco, para o agiota e para a família. Isso é o motivo de muito sofrimento. Eles percebem que têm alguma coisa errada e buscam por auxílio no Aspa”, disse Santaella.

Em maio, a equipe do Aspa realizou uma capacitação para mais de 100 profissionais de Campinas e estudantes da área da saúde da Unicamp, com foco no cuidado a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas online. Ao longo da iniciativa, foram discutidos a rede e o fluxo de cuidado entre pontos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), além da atualização dos profissionais sobre o tema.

A programação incluiu o atual cenário de apostas online, as especificidades de atendimento para adolescentes e as discussões de casos clínicos. Azevedo, Sant’ana e Santaella foram os responsáveis por conduzir as atividades.

O suporte para maiores de idade envolve triagem, avaliação psiquiátrica e acolhimento coletivo. O tratamento é feito, inicialmente, em grupo, podendo ser prescritos medicamentos para minimizar os sintomas da compulsão. Para menores de idade, o apoio é feito de maneira individual, a fim de respeitar as individualidades de cada um durante sua fase de desenvolvimento.

Em paralelo à iniciativa do HC da Unicamp, o Ministério da Saúde anunciou nesta semana que o Sistema Único de Saúde (SUS) passará a oferecer até 100 mil teleatendimentos mensais para tratamento do jogo compulsivo.


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