A Voz do Mercado, SBC Insights: consolidação do setor regulado de apostas ainda depende de estabilidade

Banner digital para a pesquisa A Voz do Mercado, da SBC Media.
Crédito: SBC Insights

Na segunda parte da cobertura sobre a pesquisa A Voz do Mercado, produzida pela SBC Insights, o SBC Notícias Brasil analisa por que a consolidação do setor regulado brasileiro ainda não pode ser confundida com estabilidade.


O nosso primeiro texto sobre a pesquisa A Voz do Mercado destacou que a indústria de apostas mantém interesse em crescer no Brasil, embora tenha adotado uma postura mais cautelosa após a euforia.

O levantamento também revelou que a tributação, os limites da publicidade e a falta de previsibilidade estão entre as principais preocupações dos profissionais que atuam no mercado regulamentado. No texto de hoje, analisamos as implicações dessas respostas e as condições necessárias para que o setor alcance um estágio mais maduro.

Mais do que medir o otimismo, a pesquisa com 56 executivos do setor ajudou a entender uma mudança de percepção. O Brasil já não é visto apenas como um mercado promissor que poderá se desenvolver no futuro. Embora o setor já tenha colhido frutos, o cenário brasileiro ainda parece um tanto instável.

O mercado regulado entrou em uma fase mais complexa

A regulamentação federal, iniciada em janeiro de 2025, permitiu que o governo e a própria indústria passassem a trabalhar com informações mais concretas sobre apostas, arrecadação, comportamento dos usuários e funcionamento das empresas autorizadas.

Ao mesmo tempo, o primeiro ano foi marcado por sucessivas discussões políticas e regulatórias. Entre os temas que influenciaram o ambiente estiveram a atuação de loterias estaduais, a cobrança de tributos sobre períodos anteriores à regulamentação, as apostas realizadas por beneficiários de programas sociais como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e uma agitação contínua no Congresso Nacional, sobretudo em casos de suspeita de manipulação de resultados.

Esse cenário mostrou que a obtenção da licença federal não encerraria o processo de adaptação, já que inúmeros fatores são capazes de afetar despesas, estratégias comerciais e decisões de investimento.

O desafio para operadores, portanto, deixou de ser apenas aderir à regulamentação e jogar de acordo com as regras. Passou também a envolver a construção de operações sustentáveis em um ambiente em que determinadas normas podem ser revistas antes mesmo de seus efeitos serem completamente avaliados.

A tributação se tornou um teste de previsibilidade

Pessoa calculando impostos.
Crédito: Shutterstock

A preocupação com o modelo tributário não está restrita ao valor pago pelas empresas. O ponto central identificado pela pesquisa é a dificuldade de projetar custos quando existe a percepção de que as alíquotas poderão voltar ao debate sempre que o governo buscar novas fontes de arrecadação.

O aumento gradual da tributação sobre o Gross Gaming Revenue (GGR, receita bruta de jogos) das casas de apostas reforçou esse receio. Para os entrevistados, decisões desse tipo podem afetar a capacidade de reinvestimento, aquisição de tecnologia, contratação de profissionais e desenvolvimento de ferramentas de proteção aos apostadores.

A questão também envolve a diferença competitiva entre o mercado regulado e o ilegal. Enquanto as empresas autorizadas pagam licenças e tributos e precisam cumprir exigências de compliance, identificação e jogo responsável, plataformas ilegais continuam tentando alcançar consumidores brasileiros sem seguir nenhuma regra.

Assim, novas elevações tributárias podem produzir um efeito diferente do pretendido. Caso a operação regulada se torne excessivamente onerosa, as empresas licenciadas podem ter menos recursos para oferecer produtos competitivos e atrair consumidores que ainda utilizam as plataformas ilegais.

Embora a opinião pública por vezes ache que o setor de apostas não quer pagar impostos, a pesquisa A Voz do Mercado identificou, na verdade, que a estabilidade tributária deve ser tratada como parte da segurança jurídica necessária para o desenvolvimento do mercado.

Restrições à publicidade podem ampliar a vantagem dos operadores ilegais

A publicidade representa outro ponto de tensão. A comunicação das casas de apostas precisa ser acompanhada por regras que protejam menores de idade, combatam promessas enganosas e apresentem o jogo como entretenimento, e não como uma alternativa de renda.

Por outro lado, a limitação da publicidade também pode impedir o setor regulado de apostas de explicar aos consumidores quais plataformas estão autorizadas a operar no país.

Essa distinção é especialmente importante em um mercado no qual sites ilegais continuam acessíveis por meio de novos domínios, aplicativos e redes sociais. Enquanto um operador autorizado perde espaço de comunicação, o operador clandestino continua alcançando consumidores.

É preciso, então, equilibrar a proteção e a viabilidade comercial. Restringir excessivamente a publicidade legal, sem uma redução proporcional da exposição dos sites ilegais, pode dificultar a migração dos apostadores para o ambiente regulamentado.

O amadurecimento das estratégias de conteúdo, afiliados, patrocínios, presença física e construção de marca mostra que as empresas já buscam reduzir a dependência de um único canal. Ainda assim, nenhuma estratégia comercial substitui a necessidade de combater efetivamente o mercado ilegal — algo que o governo vem priorizando nos últimos dois meses.

Aqui, vale lembrar que a pesquisa A Voz do Mercado foi realizada bem antes do governo impor mais limites à publicidade de apostas em julho, após observar excessos na Copa do Mundo de 2026.

Porém, o setor regulado não criticou, obrigatoriamente, as novas normas impostas pelo Ministério da Fazenda. Os operadores cobraram, sim, mais combate ao mercado ilegal.

Consolidação não significa estabilidade

Apesar dos desafios, a pesquisa A Voz do Mercado não identificou que o setor de apostas está em retração. O potencial brasileiro continua relacionado ao tamanho da população, ao interesse por esportes, à digitalização dos meios de pagamento e à profissionalização de diferentes áreas do ecossistema.

A consolidação das marcas licenciadas, a melhoria das ferramentas de jogo responsável e a migração gradual de consumidores para plataformas autorizadas representam oportunidades concretas de crescimento.

O que mudou, na verdade, foi a forma como as empresas avaliam essas oportunidades. O mercado passou a exigir mais planejamento, capacidade de adaptação e acompanhamento das decisões tomadas em Brasília.

Essa cautela tende a ganhar ainda mais relevância em 2026, ano de eleições para presidente, governadores, deputados e senadores. Mudanças na composição do Congresso Nacional e no Poder Executivo poderão influenciar novos debates sobre tributação, publicidade, proteção ao consumidor e competências lotéricas.

Mais do que querer um cenário mais previsível e livre de agitações — talvez por pensar que isso seja impossível no Brasil — as lideranças com quem o SBC Notícias Brasil conversa querem que os políticos tomem decisões técnicas e querem ter tempo suficiente para se adaptar.

Conclusão da pesquisa

Área de exposição do SBC Summit Rio 2026.
Crédito: SBC

O crescimento do setor regulado de apostas está condicionado à consistência do arcabouço regulatório, à estabilidade tributária e à capacidade das autoridades de reduzir a participação das plataformas clandestinas.

O setor ainda tem espaço para expandir, fortalecer marcas autorizadas e aprimorar suas práticas. Mas esse desenvolvimento dependerá de um ambiente no qual as empresas consigam planejar investimentos sem esperar mudanças repentinas a cada novo debate fiscal ou alternância de poder.

A principal conclusão da pesquisa A Voz do Mercado é que claramente existe uma disposição para investir no Brasil, mas ela é condicionada. O mercado quer expandir, porém, precisa de mais clareza antes de fazer mais investimentos.

A maturidade será determinada pela capacidade de transformar regras iniciais em uma política pública consistente ao longo dos próximos cinco anos.

Enquanto isso, todo o time da SBC seguirá atento às mudanças regulatórias e reunirá novamente as principais lideranças do setor no SBC Summit Rio 2027 para discutir o cenário brasileiro, promover networking e auxiliar empresas a fazer negócios.


Clique aqui para baixar a pesquisa A Voz do Mercado.


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