A exposição à propaganda de casas de apostas durante a Copa do Mundo provocou uma reação negativa da sociedade e deve levar o setor a rever a forma como divulga seus produtos. A avaliação é de Guilherme Figueiredo, diretor de Relações Institucionais da Betano no Brasil, em entrevista concedida à coluna Painel S.A., da Folha de S.Paulo.

A Betano é uma das maiores patrocinadoras do futebol brasileiro, já que detém os naming rights do Campeonato Brasileiro – Série A (Brasileirão) e da Copa do Brasil, os dois maiores torneios de futebol masculino do Brasil.
Durante a entrevista, Figueiredo reconheceu que a estratégia adotada pela CazéTV nos primeiros dias do torneio gerou desgaste para as operadoras de apostas. Ao mesmo tempo, defendeu que as empresas envolvidas não infringiram as regras vigentes e afirmou que a Betano está aberta a discutir mudanças nas mensagens publicitárias.
As investigações conduzidas pelo Governo Federal e a opinião pública levaram a CazéTV a alterar sua forma de anunciar casas de apostas, adotando um modelo mais tradicional. E, na reta final do torneio, as novas regras de publicidade de apostas entraram em vigor.
Nota do editor
A Betano não figura entre as operadoras que foram investigadas pelo governo ao longo da Copa do Mundo.
Betano reconhece repercussão negativa na Copa
A publicidade de apostas durante as transmissões da Copa se tornou alvo de críticas, sobretudo pelo incentivo à consulta de odds e à realização de apostas enquanto as partidas estavam em andamento.
Figueiredo admitiu que o episódio foi prejudicial à imagem do setor e disse que a reação do público precisa ser considerada pelas operadoras e pelos veículos de comunicação.
“Naturalmente foi negativo. Você vê a repercussão que teve. Quando você vê a repercussão da sociedade, a gente tem que entender, e a própria CazéTV reconheceu, que talvez tenha exagerado. Em três dias, eles mudaram o posicionamento. Continuam expondo as marcas, continuam fazendo as propagandas, mas alinhadas com o jogo responsável.”
Para Figueiredo, a bet365, a KTO e a Betnacional — as três casas de apostas envolvidas nas transmissões da CazéTV — não cometeram ilegalidades. O problema, em sua avaliação, foi a combinação entre o formato das mensagens, o incentivo às cotações durante os jogos e a elevada audiência do evento.
Figueiredo acrescentou que o setor de apostas está disposto a participar de discussões sobre quais tipos de comunicação devem ser permitidos.
Diretor da Betano opina sobre as novas regras de publicidade
Questionado sobre as regras anunciadas por Dario Durigan, o atual ministro da Fazenda, Figueiredo avaliou que o caminho adequado é estabelecer limites claros para o conteúdo das campanhas, sem impedir completamente a publicidade das empresas autorizadas.
“O que a gente sempre defende é que a mensagem precisa ser regrada. Se tem que ter um aviso de que [a aposta] pode gerar perda financeira e vício, a gente vai obedecer e vai colocar”, afirmou.
O representante da Betano também classificou as mudanças como parte de um processo natural de amadurecimento do mercado regulado. Para ele, o governo e o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) devem ajustar as regras depois dos problemas identificados ao longo do primeiro ano e meio da regulamentação.
Apesar de considerar preocupantes as propostas apresentadas no Congresso Nacional para proibir a publicidade ou até extinguir as casas de apostas, Figueiredo disse não acreditar que uma proibição integral tenha viabilidade política atualmente.
Na avaliação do executivo, o governo passou a priorizar o bloqueio de plataformas ilegais — 56 mil desde 2025 — e a educação dos consumidores, em vez de impedir a atividade.
Betano defende contribuição ao futebol brasileiro
Além de justificar a manutenção da publicidade, Figueiredo apresentou o investimento no esporte como uma das principais contribuições das casas de apostas para o país.
O executivo relacionou o dinheiro proveniente dos patrocínios ao fortalecimento financeiro dos clubes, à contratação de jogadores de maior projeção e ao aumento da competitividade das competições brasileiras.
“A gente investe no futebol porque quer que o esporte brasileiro seja melhor. Quando você tem as bets investindo no futebol, você tem sete anos seguidos de Libertadores com brasileiros ganhando. E, em 2026, muito provavelmente vai ser de novo. A gente ajuda a repatriar Neymar, Lucas Paquetá, Vitor Roque e tantos outros.”
Figueiredo também disse que o Brasileirão passou a se comparar a ligas europeias em dificuldade, entretenimento e qualidade técnica. Embora algumas operadoras tenham reduzido ou encerrado contratos com clubes recentemente, ele não prevê uma saída definitiva das casas de apostas do futebol.
Segundo o diretor, poderá haver uma revisão dos valores praticados conforme o mercado amadurece, mas o interesse comercial deve continuar.
“A gente precisa que o futebol seja forte para o nosso mercado ser forte”, concluiu.
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