Blask projeta que 21,6 milhões de brasileiros continuarão apostando após a proibição

Bandeira do Brasil.
Crédito: Shutterstock

A proibição das apostas de quota fixa no Brasil deve retirar consumidores do mercado regulado, mas não eliminar a demanda pelo produto. Essa é a principal conclusão de um estudo publicado pela Blask na terça-feira, 6, que projeta que cerca de 21,6 milhões dos 25,2 milhões de brasileiros que apostavam em plataformas autorizadas continuarão jogando, em sua maioria, em sites offshore.

A estimativa foi elaborada a partir da experiência da Índia, que proibiu jogos online com dinheiro real em agosto de 2025. A Blask acompanhou o comportamento dos mesmos usuários antes e depois da mudança e utilizou o Brasil, que ainda não havia proibido as apostas naquele período, como grupo de controle. O painel analisado variou de 13,7 mil a 111 mil pessoas na Índia e de 25 mil a 72 mil no Brasil.

Segundo a Blask, três meses após a proibição indiana, 62,9% dos usuários que antes acessavam plataformas domésticas continuavam apostando. Quase todos haviam migrado para sites offshore: 61% do grupo utilizava exclusivamente ou também plataformas fora do mercado doméstico. No Brasil, onde não havia proibição naquele momento, 73,5% do grupo comparável continuou apostando. 

A Blask ressalta que a projeção brasileira não deve ser interpretada como uma medição já consolidada. O painel é majoritariamente composto por usuários de desktop e acompanha visitas a sites, e não valores apostados ou depositados. Ainda assim, a empresa considera que a experiência indiana oferece uma referência para avaliar a possível migração da demanda brasileira.

Tráfego de sites autorizados despencou na primeira semana

Os primeiros dados coletados após a publicação da Medida Provisória (MP) nº 1.394/2026 em 25 de setembro, pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já mostram uma forte retração no acesso às plataformas autorizadas, que efetivamente cessaram suas operações na terça-feira, 6.

Em 1º de outubro, a parcela do painel brasileiro que havia visitado um domínio licenciado estava 73,5% abaixo do nível considerado normal pela Blask. Ao mesmo tempo, o alcance dos sites não autorizados permaneceu dentro de uma variação de 11% em relação ao padrão anterior durante todos os dias analisados. A atividade dos usuários que continuaram acessando essas plataformas, porém, aumentou: o número de eventos por visitante chegou a ficar 40% maior. 

O levantamento também mostra que a migração ainda estava em estágio inicial. Entre 5.970 apostadores que haviam utilizado exclusivamente sites licenciados no mês anterior à proibição, 6,7% acessaram uma plataforma não autorizada entre 25 de setembro e 1º de outubro, contra 5,1% em uma semana normal. Segundo a Blask, naquele momento a maior parte desse grupo havia simplesmente deixado de apostar temporariamente.

Outro indicador foi a procura pelas marcas. Até 2 de outubro, a demanda de busca por operadores licenciados havia caído 82% em relação ao padrão anterior, enquanto a redução entre marcas offshore foi de 17%.

57% dos apostadores já haviam acessado mercado ilegal

A Blask também identificou que uma parcela relevante dos consumidores brasileiros já conhecia plataformas fora do ambiente regulado antes da medida provisória.

Entre os integrantes do painel que acessaram algum site de apostas nos 90 dias anteriores a 25 de setembro, 43% utilizaram apenas domínios licenciados, 38% passaram tanto por sites autorizados quanto ilegais e 19% acessaram exclusivamente plataformas sem licença brasileira. Assim, 57% haviam tido algum contato com o mercado não autorizado.

Para a Blask, essa oferta pré-existente pode acelerar uma eventual transferência de consumidores. A Blask identificou 72 sites de operadores não autorizados que alcançaram ao menos 25 participantes de seus painéis tanto no Brasil quanto na Índia nos 90 dias anteriores ao levantamento.

Adicionalmente, o estudo aponta uma mudança na forma como essas plataformas são encontradas. Na Índia, a participação dos mecanismos de busca entre os acessos a operadores offshore caiu de 16% para 8% depois da proibição, enquanto redes de anúncios, redirecionamentos e outros sites ganharam espaço. Alguns operadores passaram ainda a utilizar dezenas de domínios espelho. 

Blask alerta para perda das proteções do mercado regulado

Segundo a Blask, uma das principais consequências dessa migração seria a retirada dos apostadores das ferramentas obrigatórias de proteção existentes no ambiente autorizado brasileiro, como verificação de idade, limites e mecanismos de autoexclusão.

“A demanda persiste, mas as proteções desaparecem”, afirmou Jeffrey Haas, presidente do Conselho Consultivo da Blask, ao defender que governos priorizem modelos regulatórios com protocolos de proteção ao jogador e controles financeiros. 

O estudo também abordou o impacto econômico da proibição. O mercado regulado brasileiro registrou um Gross Gaming Revenue (GGR, receita bruta de jogos) de aproximadamente R$ 37 bilhões em 2025, com 25,2 milhões de apostadores e R$ 9,95 bilhões em tributos arrecadados. As 85 licenças federais representaram outros R$ 2,55 bilhões em pagamentos de outorga.

No cenário projetado pela Blask caso a proibição seja mantida, a tendência seria de avanço expressivo da participação do mercado offshore. A experiência indiana indica que a extinção da regulação reduz pouco a demanda total por apostas e transfere uma parcela significativa dos usuários para operadores não autorizados.


Veja também a projeção feita pela H2 Gambling Capital.


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