O Clarice, estúdio de inteligência e pesquisas, lançou o relatório Mulheres & Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto Ideia.
Segundo o levantamento, 49% dos brasileiros já apostaram, dos quais 42% são mulheres. Entre elas, 12% afirmaram já ter sido impactadas por alguém que joga.
A pesquisa qualitativa foi realizada entre junho e agosto, com 60 pessoas, principalmente mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, nas regiões Sudeste e Nordeste do país. A enquete quantitativa ouviu 2.008 pessoas entre 8 e 9 de julho. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.
“Mulher paga a conta”, aponta pesquisa
O documento destacou que as mulheres costumam administrar as dimensões materiais e emocionais das famílias brasileiras, afirmando que “para toda aposta online, uma mulher paga a conta”. Do ponto de vista do estudo, é a partir da perspectiva de uma mulher que é possível observar “a crise inteira”.
Além disso, o Clarice apontou que a atividade pode levar à destruição: as apostas impactam a saúde financeira das famílias, quebram a confiança e tiram a paz de dentro de casa. Os dados indicaram que 67% das mulheres concordam que as apostas destroem famílias, enquanto 59% dos homens compartilham desta opinião.
O relato de uma apostadora de 58 anos foi incluído no documento: “Eu disse: vou pagar a energia. Aí eu disse: não, vou me aventurar para ver se eu ganho mais alguma coisa para dentro de casa. Aí terminou, foi embora o dinheiro da energia e não ganhei nada”.
No entanto, para o estúdio, a dívida financeira é apenas uma parcela dos impactos das apostas. Outro dado do estudo aponta que 23% dos brasileiros relataram ter vivenciado ou presenciado situações em que a atividade contribuiu para episódios de violência nas famílias.
A maioria das mulheres (62%) defendeu a proibição do setor no Brasil, independentemente do posicionamento político, enquanto 45% afirmaram concordar com a medida que bloqueia pagamentos via Pix em sites de apostas para pessoas que recebem benefícios sociais. Outros 33% demonstraram interesse em um canal anônimo de apoio.

Estudo reforça importância da comunicação responsável
Mais do que sustentar um debate sobre a proibição das apostas, os dados apresentados pelo estudo reforçam a necessidade de comunicação mais responsável e clara sobre a atividade.
Um dos relatos incluídos no levantamento mostra que parte dos usuários ainda enxerga as apostas como possibilidade de obter renda ou melhorar a situação financeira da família. Essa percepção, no entanto, contrasta com a própria natureza da atividade, na qual não há garantia de ganho e a expectativa deve ser de entretenimento, e não de geração de renda.
A discussão sobre os impactos das apostas não deveria se limitar à defesa ou à rejeição da atividade. Informar o público sobre os riscos, deixar claro que apostar não é uma forma de investimento ou de renda e reforçar mecanismos de jogo responsável também são medidas importantes para reduzir danos. A comunicação tem papel especialmente relevante em um mercado regulado, no qual operadores e demais agentes precisam contribuir para que o consumidor tenha compreensão adequada da atividade.
Ao mesmo tempo, a experiência de outros mercados mostra que a proibição, por si só, não necessariamente elimina a demanda por apostas. Quando existe procura por uma atividade e ela é retirada do ambiente regulado, parte desse público pode migrar para plataformas ilegais, que não estão submetidas às mesmas exigências de proteção ao consumidor, jogo responsável, prevenção à fraude e mecanismos de controle.
Por essa razão, não se trata apenas de permitir ou proibir as apostas, mas também de buscar formas de reduzir os riscos para quem decide participar da atividade.
O levantamento pode ser interpretado como alerta para a necessidade de mais informação, transparência e comunicação responsável, especialmente diante da percepção de que as apostas podem ser utilizadas como alternativa para melhorar a renda. Afinal, quando o usuário entra em uma plataforma acreditando que está buscando uma fonte de dinheiro, e não uma atividade de entretenimento que envolve risco de perda, aumenta a possibilidade de decisões financeiras inadequadas.
Restrições às apostas ganham espaço no discurso político

Nos últimos dias, diferentes nomes da política brasileira também manifestaram oposição às apostas online. Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo e candidato à reeleição, afirmou que a atividade se tornou um problema de saúde pública e declarou que “ou o Brasil acaba com as bets, ou as bets acabam com o Brasil”.
Já o candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) afirmou que pretende proibir o funcionamento das apostas no país caso seja eleito. Segundo ele, seu “primeiro ato como presidente será acabar com as bets”.
As declarações se somam a posicionamentos recentes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que afirmou que, se dependesse apenas dele, as apostas seriam proibidas. A postura de Lula chama a atenção porque seu governo foi responsável pela regulamentação das apostas esportivas e dos jogos online, sancionada por meio da Lei nº 14.790/2023. Ao mesmo tempo, o presidente já afirmou que apoiaria a legalização dos cassinos caso o projeto fosse aprovado pela Câmara dos Deputados.
Quer conferir mais histórias como esta? Acesse o novo canal da SBC Media no YouTube, o novo espaço dedicado a tudo relacionado à multimídia na SBC, onde nossa equipe explora em detalhes as principais notícias dos setores de apostas esportivas, iGaming, afiliados e pagamentos.
Receba um resumo com as principais notícias sobre o mercado de jogos online e de apostas esportivas no Brasil através do link. A newsletter é enviada toda segunda, terça e quinta-feira, sempre às 17 horas.












